Ferramentas de inteligência artificial que simulam perfis de eleitores custam a partir de R$ 65 mil por mês, um terço do valor de uma pesquisa qualitativa tradicional com 1.000 participantes, que sai por R$ 150 mil. A diferença de preço ajuda a explicar por que campanhas menores recorrem à tecnologia.
Pesquisadores identificaram ao menos 18 avatares políticos sintéticos em operação nas redes sociais brasileiras, batizados com nomes como "Dona Maria" e "Seu Zé da Feira". Eles simulam rosto, voz, trejeitos e uma narrativa pessoal completa, como se fossem eleitores reais opinando sobre pautas políticas.
O objetivo desses perfis é fabricar a impressão de apoio ou rejeição a um candidato ou a uma pauta, sem que o público saiba que está lendo a opinião de um personagem que não existe.
É prática parecida com perfis falsos de médicos feitos com IA que a AGU processou, mas agora aplicada à política.
A tecnologia que simula um eleitor de mentira custa menos do que ouvir um eleitor de verdade.
O que a regra do TSE permite e proíbe
A Resolução TSE 23.755/2026 exige identificação clara sempre que a propaganda for criada ou alterada de forma significativa por IA. Em vídeo, a identificação precisa ser compatível com o formato; em áudio, vem logo no início; em imagem, leva marca d'água e descrição em áudio.
Fica de fora dessa exigência o uso comum de IA para melhorar qualidade de imagem, vinheta ou identidade visual, quando isso não muda o conteúdo. Já o deepfake que cria ou espalha informação falsa é sempre proibido, sem exceção.
O tema mais amplo da regulação de IA também tramita no Congresso. Um projeto que prevê multa de até R$ 50 milhões para mau uso da tecnologia segue sem votação, à parte da regra específica para eleições.
A resolução também veda que sistemas de IA ranqueiem ou recomendem candidato, partido ou coligação a um usuário. E proíbe publicar ou impulsionar conteúdo sintético novo com imagem, voz ou manifestação de candidato nas 72 horas antes e 24 horas depois do dia da votação.
Quem descumprir pode pegar multa de R$ 5 mil a R$ 30 mil, além de responder por cancelamento de registro ou mandato e na esfera criminal.
A fiscalização, porém, já mostrou falha. Um levantamento da Agência Lupa achou 37 publicações com IA em contas oficiais de candidatos sem nenhum aviso ao eleitor, mesmo a regra já valendo desde março.
O que os especialistas veem de risco
Para o cientista da computação Julio Cesar Santos, da Universidade Federal do Ceará, o problema é a fronteira difícil de traçar. "A IA generativa funciona agrupando e analisando conteúdos já existentes", afirma, o que torna "extremamente complexo definir na legislação onde termina" o uso legítimo.
Já o cientista político Rodrigo Santaella, também da UFC, vê o saldo como negativo. Para ele, "os perigos reais da IA para a sobrevivência democrática superam de forma alarmante" os benefícios que a tecnologia pode trazer à campanha.


























