As exportações da China cresceram 25% em agosto ante o mesmo mês de 2025, e o país já responde por 30,7% de tudo o que o Brasil exportou neste ano até agosto, recorde da série histórica. A Confederação Nacional da Indústria (CNI) mostra que a penetração de produtos chineses na indústria nacional também bateu novo teto em 2024.

No acumulado de janeiro a agosto de 2026, o Brasil vendeu US$ 77,07 bilhões à China e importou US$ 51,56 bilhões do país, superávit de US$ 25,5 bilhões a favor do lado brasileiro.

Boa parte dessa venda é commodity. Só a soja somou US$ 39,4 bilhões, e as exportações de petróleo cresceram 23,8% no período. O agronegócio brasileiro como um todo exportou US$ 15,1 bilhões só em agosto.

A guinada é recente. Em 2015, a China respondia por 18,8% das exportações brasileiras e 17,7% das importações. Uma década depois, os números saltaram para 30,7% e 26,4%.

O Brasil hoje vende à China mais que o triplo do que vende aos Estados Unidos, o outro grande parceiro comercial do país.

Para Alessandra Cavalcante de Oliveira, professora de Economia da Universidade Anhembi Morumbi, o padrão dessa troca preocupa mais do que o volume.

Se o Brasil continuar exportando predominantemente produtos primários para a China e importando produtos industrializados e de maior conteúdo tecnológico, será ainda mais negativo para o nosso país.

Como a China pressiona a indústria brasileira?

A indústria brasileira perde espaço para os importados chineses. Segundo a CNI, a participação da China no consumo aparente da indústria nacional subiu de 7,1% para 9,2% entre 2023 e 2024, o maior nível desde 2003, início da série histórica.

A penetração total de importados no consumo da indústria avançou de 24,5% para 26,7% no mesmo período, o maior patamar em 20 anos. Os setores mais afetados são máquinas e equipamentos, máquinas elétricas, informática e ótica, além de têxteis e vestuário.

Na prática, cresce a fatia da fábrica brasileira que depende de peça ou insumo estrangeiro para funcionar. A dependência de insumos importados bateu recorde. Hoje, 25% do que a indústria usa vem de fora, ante 23% em 2023.

O comércio com a China nem sempre é favorável ao Brasil. As exportações de carne brasileira ao país despencaram 88% em agosto, após o fim de uma cota especial.

O que o governo já fez para conter as importações?

O governo aplicou direitos antidumping definitivos, por até cinco anos, sobre o aço plano revestido importado da China, segundo resolução do Comitê-Executivo de Gestão da Câmara de Comércio Exterior (Gecex) publicada em janeiro. A medida também alcançou o aço pré-pintado da China e da Índia.

Em junho, o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) aplicou antidumping sobre fios de náilon chineses e abriu investigação sobre resina PET do país. Para o presidente da Usiminas, a importação de aço chinês é a questão mais urgente do setor.

Enquanto a relação com a China se aprofunda, o comércio com os Estados Unidos segue tensionado pelo tarifaço. Brasília e Washington marcaram a primeira reunião presencial sobre o tema só para o fim de setembro.

O que acontece agora

Está em análise no MDIC uma revisão da medida antidumping sobre cilindros de GNV e biometano chineses usados em ônibus e caminhões, pedida pela fabricante brasileira MAT, sem prazo definido para conclusão.