O cacique Raoni Metuktire, 94 anos, passou a receber cuidados paliativos em casa, na região de Peixoto de Azevedo (Mato Grosso), após ser diagnosticado com câncer no aparelho digestivo. O Instituto Raoni divulgou a informação nesta segunda-feira (14), atribuindo a decisão à idade avançada do líder Kayapó e aos riscos de tratamentos mais agressivos.

Exames confirmaram adenocarcinoma pouco diferenciado no aparelho digestivo, segundo o instituto. O quadro se agravou em junho, quando o cacique precisou ser transferido às pressas para São Paulo após uma obstrução intestinal grave causada pelo tumor.

Em São Paulo, Raoni foi submetido a uma gastroenteroanastomose no Hospital São Paulo, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). O procedimento criou uma nova passagem para o trânsito de alimentos, o que melhorou as condições de alimentação e o conforto do cacique.

A internação em julho já havia sido marcada por complicações. O cacique apresentou uma nova hemorragia digestiva durante o tratamento em São Paulo e teve leve piora no quadro renal, mas seguia consciente, segundo o boletim médico da época.

Como são os cuidados que ele recebe agora

Os cuidados paliativos de Raoni combinam assistência médica e de enfermagem, fisioterapia e cuidados com alimentação e hidratação, aplicados em casa, e não mais em ambiente hospitalar.

A decisão pela via paliativa, e não por uma nova cirurgia, pesou o risco que tratamentos agressivos representam na idade avançada do cacique, de acordo com a nota do Instituto Raoni.

O objetivo declarado é controlar dor e sintomas e preservar qualidade de vida, não reverter o tumor.

O acompanhamento também tem uma dimensão espiritual. Raoni recebe a presença de pajés de sua confiança, em atenção intercultural que respeita os costumes do povo Mebêngôkre, nome pelo qual os Kayapó se autodenominam.

Relembre o caso

Raoni já havia passado por uma internação na UTI em junho, com melhora do quadro, antes de a hemorragia digestiva de julho reacender a preocupação com sua saúde.

O cacique nasceu no início dos anos 1930 na aldeia Krajmopyjakare, em uma época em que o povo Kayapó ainda não tinha contato com o mundo exterior. Décadas depois, se tornaria uma das lideranças indígenas mais conhecidas do planeta.

Raoni participou da Assembleia Nacional Constituinte de 1987 e 1988, mobilização que resultou na inclusão dos direitos dos povos indígenas na Constituição Federal.

Em 1989, liderou o 1º Encontro dos Povos Indígenas do Xingu, em Altamira (PA), que pressionou o governo a abandonar, na época, o projeto do complexo hidrelétrico do Xingu.

Um documentário sobre sua trajetória concorreu ao Oscar em 1978, e o encontro com o músico britânico Sting, em 1987, ampliou sua projeção internacional. Em 2020, Raoni foi indicado ao Prêmio Nobel da Paz pela defesa das culturas tradicionais e dos territórios indígenas.