Dois dos experimentos mais famosos da psicologia social, o da prisão de Stanford e o de obediência de Stanley Milgram, já foram chamados de farsa, mentira e fraude por pesquisadores que reexaminaram os dados décadas depois de publicados nos Estados Unidos.
Mesmo assim, o interesse não diminuiu: em outubro, a Netflix lançou seis episódios do reality show "O Novo Experimento de Aprisionamento de Stanford", que retoma o estudo conduzido pelo psicólogo Philip Zimbardo em 1971.

Os dois estudos nasceram na "era de ouro" da psicologia social americana, entre 1950 e o início dos anos 1970, quando pesquisadores testavam como grupos e autoridades moldam o comportamento de pessoas comuns.
Na Universidade Yale, no início dos anos 1960, Milgram dizia a voluntários que ajudavam um estudo sobre memória. Eles deviam aplicar choques elétricos, falsos mas que acreditavam reais, em um ator a cada resposta errada.
O que as revisões recentes encontraram
Segundo o psicólogo David Kaposi, da Open University, somando todas as versões, mais gente desobedeceu do que obedeceu às ordens de aplicar choques. Milgram rodou mais de 25 variações do experimento, mas filmou só uma.
Essa única versão filmada foi editada para mostrar o oposto do conjunto: que dois terços dos participantes iriam até o fim. É essa versão, e não o conjunto dos dados, que ficou famosa.
Os números acima mostram o descompasso entre o que o experimento de Milgram mediu como um todo e a imagem que ficou famosa: a de que a maioria obedece cegamente a uma autoridade.
Publicidade
Em Stanford, o pesquisador francês Thibault Le Texier mostrou, em 2019, que a equipe de Zimbardo deu instruções aos guardas sobre como agir, e que alguns prisioneiros exageraram o sofrimento relatado.
A leitura alternativa
Nem todo pesquisador lê os dois estudos como fraude. Os psicólogos Alex Haslam e Stephen Reicher defendem o conceito de "engaged followership": os participantes não obedeceram cegamente, mas escolheram continuar porque acreditavam na causa científica.
Para Kaposi, é essa mensagem perturbadora, a de que pessoas comuns podem escolher o mal quando poderiam escolher o bem, que explica por que o público segue voltando a esses estudos antigos, mesmo contestados.































