Quatro policiais militares dispararam 45 vezes contra Gustavo Munis de Santana, 20 anos, e o atingiram com pelo menos 27 tiros na madrugada deste sábado (10), em Moema, Zona Sul de São Paulo. Os agentes confundiram com uma arma o celular que ele segurava.

O chamado ao Centro de Operações da Polícia Militar (Copom) partiu às 2h35, relatando um homem em surto que ameaçava a própria vida perto da Avenida Moreira Guimarães.

Ao avistar a equipe, Gustavo correu e se escondeu no recuo de um imóvel comercial na Alameda dos Guaramomis.

Minutos depois, ele saiu da área escura com os braços estendidos, segurando o celular. Os quatro agentes abriram fogo na mesma hora.

Segundo o boletim, os disparos ocorreram por volta das 2h45.

Viaturas da Polícia Militar de São Paulo enfileiradas em um pátio
Viaturas da Polícia Militar de São Paulo — foto de contexto, sem relação direta com o caso de Moema. Foto: Alexandre Carvalho/A2img/Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

Segundo o boletim, os 45 disparos saíram de pistolas Glock calibre .40: o soldado Gomes deu 14 tiros, o soldado Sales 13, o soldado França 12 e o sargento Macedo 6. Outros quatro PMs de apoio não atiraram.

Ao lado do corpo, a perícia encontrou apenas um celular. Nenhuma arma de fogo foi localizada no local.

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A família disse à polícia que Gustavo não tinha passagens criminais, morava com a mãe e as irmãs e fazia tratamento psiquiátrico com antidepressivos desde o ano passado. A Polícia Civil confirmou que ele não tinha antecedentes.

O caso foi registrado pelo Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) como morte decorrente de intervenção policial. O corpo foi liberado ao Instituto Médico-Legal (IML) às 11h04.

Letalidade policial em alta no estado

O caso de Moema soma-se a uma tendência que os dados oficiais já mostram: a Secretaria de Segurança Pública (SSP-SP) registrou 241 mortes por intervenção policial de janeiro a abril de 2026, alta de 3,4% sobre o mesmo período de 2025.

Mais da metade das vítimas desse levantamento eram negras, segundo a SSP-SP. As mortes por ação policial chegaram a representar de 22% a 23% de todas as mortes violentas do estado no início do ano.

Em reportagem do Ponte Jornalismo, o pesquisador Almir Felitte afirma que o governo estadual "passou a importar a narrativa de dominação territorial que orienta a segurança pública no Rio de Janeiro", referência à mudança na estratégia de policiamento sob o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos).

A ausência de qualquer arma no local reabre a discussão sobre o treinamento das equipes para abordagens a pessoas em crise.

Em setembro, um PM já havia matado o próprio sogro a tiros durante uma discussão em Guarulhos, caso que também corre sob investigação da corporação.

A alta nas mortes em operação não é um fato isolado de 2026. Levantamento publicado por este portal já havia mostrado por que as mortes em operação policial sobem em SP desde 2023, primeiro ano de Tarcísio no governo do estado.

O que acontece agora

A conduta dos quatro policiais será apurada pelo DHPP, que vai analisar depoimentos e provas para determinar se houve excesso no uso da força. Não há, até a publicação desta matéria, data prevista para a conclusão do inquérito.