Uma pesquisa da instituição britânica Drinkaware mostra que 26% dos jovens de 18 a 24 anos no Reino Unido não consomem álcool, contra 7% em 2012. Parte dessa geração trocou a bebida por remédios de ansiedade para socializar sem ressaca.

Um estudo publicado na revista Nature Communications mostra que o consumo global de pregabalina mais que quadruplicou entre 2008 e 2018. O medicamento foi criado originalmente para tratar epilepsia e dor nos nervos.

Os remédios usados fora da bula

Além da pregabalina, jovens também recorrem ao propranolol, um betabloqueador que reduz a frequência cardíaca e relaxa a musculatura, e a peptídeos injetáveis, que ganham popularidade recente.

Segundo a Universidade College London, 28% das pessoas com pouco mais de 20 anos na Inglaterra relatam altos níveis de ansiedade. Doenças mentais graves são mais comuns entre a Geração Z do que entre os millennials.

A psicóloga Emily Jones, do King's College London, associa parte do fenômeno ao isolamento social vivido pelos jovens, que teria ensinado essa geração a temer a interação social sem alguma substância de apoio.

Já o pesquisador Liam Knowles, da Universidade de Teesside, e o psicofarmacologista David Nutt, do Imperial College London, alertam para os riscos do uso sem orientação médica.

Entre eles estão dependência, aumento de ansiedade e insônia ao interromper o uso, além de tonturas e queda perigosa da frequência cardíaca no caso do propranolol.

E no Brasil?

O país não tem uma pesquisa equivalente sobre a troca do álcool por remédios entre jovens. Mas os benzodiazepínicos, outra classe de medicamentos usados contra ansiedade, já estão entre os cinco mais vendidos e controlados do Brasil, prescritos principalmente na atenção básica de saúde.

Transtornos de ansiedade têm prevalência elevada entre jovens adultos brasileiros, sobretudo no ambiente universitário, segundo estudos da área de saúde pública.

Uso excessivo e prolongado desses remédios sem indicação médica pode causar déficit cognitivo, alteração motora, sedação excessiva e dependência.

O que ainda não se sabe

Os dados que existem são majoritariamente britânicos. Falta pesquisa brasileira que meça se o mesmo movimento de troca do álcool por remédio está acontecendo aqui, e em que escala.

Sem esse retrato local, fica difícil dizer se o Brasil segue o mesmo caminho ou vive um fenômeno diferente.