A Justiça do Rio de Janeiro manteve presos, neste sábado (22), os dois seguranças suspeitos de matar o ciclista Cláudio Rafael Landeiro, espancado em Copacabana na noite de 11 de agosto após ser confundido com um ladrão de bicicleta. Ele não resistiu aos ferimentos no Hospital Municipal Miguel Couto.
A decisão foi do juiz Rafael de Almeida Rezende, em audiência de custódia. A bicicleta pertencia à irmã de Cláudio, e a Polícia Civil não encontrou indício de que o veículo tivesse sido furtado.
Segundo o delegado Ângelo Lages, da 12ª Delegacia de Polícia, a vítima tinha dificuldades de fala e problemas psiquiátricos, o que teria impedido que explicasse a origem da bicicleta.
"O crime começou na Barata Ribeiro, um segurança começou a interrogar de quem seria a bicicleta e ele, com dificuldades de fala, não conseguiu explicar que a bicicleta era da irmã", disse Lages.
"Ele sai dali e vai para a Rua Felipe de Oliveira e senta na porta de um prédio. Ali chegaram dois entregadores e novamente aparece o segurança Davi com um porrete e começam a agredi-lo de forma bárbara", completou o delegado.
As imagens de câmeras de segurança mostram três homens cercando a vítima, que sofreu pelo menos 30 golpes com o objeto, além de socos e chutes. Cláudio caiu desacordado e não reagiu. Os agressores revistaram seus bolsos antes de deixar o local.
Como avança a investigação
A Polícia Civil segue agora em três frentes: identificar testemunhas que não socorreram Cláudio, localizar um quinto suspeito que aparece de moletom nas imagens e apurar quem contratava os seguranças de forma irregular.
Jorge Luiz Ricardo Dias, de 56 anos, teve participação classificada como acessória. Segundo a investigação, ele segurou a bicicleta da vítima e ficou com o objeto usado nos golpes depois. O outro segurança, identificado como Davi, é apontado como um dos que agrediram Cláudio diretamente.
O entregador Felipe Eduardo dos Santos Silva, preso na sexta-feira (21), admitiu à polícia ter segurado a vítima e dado quatro chutes nas costas dela. Nega intenção de matar e afirma que nenhum golpe seu atingiu a cabeça.
O que a polícia apura sobre a segurança clandestina
A legislação federal restringe empresas de segurança privada a estabelecimentos e prédios, o que torna irregular o serviço prestado nas ruas de Copacabana, segundo Lages. Comerciantes que pagavam pela segurança podem ser responsabilizados na esfera administrativa, com risco de perda do alvará.
"Se a gente provar que de alguma forma alguém concorreu para o crime do estabelecimento, ele também pode ser indiciado pelo crime de homicídio", disse Lages, que classifica o caso como homicídio triplamente qualificado, por motivo fútil, meio cruel e impossibilidade de defesa da vítima.
A irmã de Cláudio, Fabiana Landeiro Hansen, descreveu o irmão como um homem tranquilo. "A família está desolada, eu, minha mãe, irmã. Foi simplesmente uma iniciativa de um indivíduo que pressupôs isso sobre ele. Não teve nenhum motivo", disse.
A Comissão de Direitos Humanos da OAB-RJ passou a acompanhar o caso e se colocou à disposição da família para assistência jurídica, segundo o presidente Sidney Guerra.
O que pode diferenciar este caso dos anteriores
O caso reacende a discussão sobre linchamentos no Rio. Em janeiro de 2022, o congolês Moïse Kabagambe foi espancado até a morte por seguranças na Barra da Tijuca, ao cobrar dois dias de pagamento atrasado.
A apuração sobre quem financiava o serviço de segurança em Copacabana pode diferenciar este caso dos anteriores. Se comerciantes ou moradores também responderem pelo crime, não será só quem golpeou a levar a culpa.




























