Influenciadores, podcasts e startups de bem-estar têm apresentado a nicotina como um composto que melhora o foco e protege contra o declínio cognitivo. Para a pneumologista Hasmeena Kathuria, da Universidade de Wisconsin-Madison, a ciência não sustenta essas promessas sobre a substância viciante.
Kathuria estuda dependência de nicotina e escreveu sobre o tema em artigo publicado no site The Conversation, reproduzido pela Folha — texto que serve de base para esta reportagem. Segundo ela, a nicotina está sendo reposicionada: de substância viciante ligada ao cigarro para produto natural usado para focar mais ou envelhecer melhor.
O que o movimento pró-nicotina promete?
Conforme o levantamento da pesquisadora, o movimento promete, entre outras coisas, mais produtividade, controle de estresse e humor, e até prevenção de demência, Alzheimer e Parkinson. Os produtos incluem sachês sem tabaco e combinações com cafeína e nootrópicos.
Parte da defesa se apoia no fato de a nicotina ser um composto vegetal natural, presente também, em quantidades mínimas, em tomate, batata e berinjela.
O que os estudos realmente mostram?
Ainda segundo Kathuria, os estudos sobre melhora cognitiva em pessoas saudáveis têm resultados mistos e não comprovam os benefícios anunciados. Boa parte da melhora percebida por usuários, afirma a pneumologista, reflete apenas a reversão de sintomas de abstinência em quem já é dependente.
De acordo com a especialista, quem deixa de fumar sente reduções de ansiedade e estresse — e o alívio vem de parar, não da nicotina em si. Ela acrescenta que nenhum estudo em humanos demonstrou que a substância previne demência ou Alzheimer.
A nicotina segue sendo o principal fator do vício em cigarros comuns e eletrônicos. Kathuria alerta que usar produtos de nicotina fora de um tratamento baseado em evidências para parar de fumar carrega o risco de criar uma nova dependência.
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Os maiores riscos à saúde continuam vindo da queima do tabaco, que libera milhares de substâncias tóxicas ligadas a câncer e doenças cardiovasculares. Mas a própria nicotina isolada já tem efeitos negativos conhecidos no coração e no cérebro, segundo a pesquisadora.
O Brasil também vive esse movimento: o avanço dos sachês de nicotina no país acompanha uma tendência mundial de novos produtos sem fumaça.
A indústria do tabaco tem focado em jovens com esses novos produtos, e o uso de vapes entre adolescentes também cresce no país. Especialistas já haviam alertado que as novas tecnologias aumentam o uso de vapes entre jovens.





























