Os afastamentos do trabalho por ludopatia, o vício patológico em apostas online, subiram 59,8% no Brasil entre 2024 e 2025, de 425 para 679 casos. O salto levou empresas como Ypê, Gerdau e Whirlpool a criar programas internos contra o problema, que já causa faltas, dívidas e pedidos de adiantamento salarial entre funcionários endividados com bets.
Um estudo da Associação Europeia de Psiquiatria mostra que 82% dos pacientes com transtorno do jogo têm outro transtorno mental associado. Para a presidente da Associação Brasileira de Recursos Humanos (ABRH), Leyla Nascimento, a ludopatia "afeta a saúde mental dos trabalhadores e pode reduzir a produtividade". O médico do trabalho Marcos Mendanha reforça que o funcionário afetado "pode se tornar mais desatento e relapso".
No setor de bares e restaurantes, o líder da Abrasel em São Paulo, Gabriel Miranda, relata "pedidos constantes de adiantamento, depressão e crises de pânico" entre trabalhadores. O dono de um restaurante, Maurício Nishimori, contou que um funcionário sumiu por um dia inteiro após o depósito do salário, repetindo o comportamento por três meses seguidos. Em Vitória (ES), um vigilante foi demitido enquanto era diagnosticado com ludopatia, sem ter informado o problema ao empregador.
Como funciona o atendimento gratuito do SUS para quem tem vício em apostas?
Desde março, o Ministério da Saúde oferece telemedicina para dependentes de apostas em parceria com o Hospital Sírio-Libanês. O atendimento é feito pelo aplicativo Meu SUS Digital, com consultas por vídeo de cerca de 45 minutos com psicólogos e terapeutas, e tem capacidade para 600 atendimentos por mês.
Empresa pode demitir por justa causa um funcionário com ludopatia?
O Tribunal Superior do Trabalho (TST) avalia equiparar a ludopatia à dependência química para efeito de reversão de demissões por justa causa em processos trabalhistas envolvendo o vício em apostas. A Ypê, sob a diretora de recursos humanos Cristiane Lacerda Mutri, a siderúrgica Gerdau e a fabricante Whirlpool (dona de Brastemp e Consul) criaram programas internos de conscientização sobre o tema; a Femaco, federação que representa trabalhadores de serviços de asseio e conservação, iniciou campanha própria em maio de 2025.
O presidente da Femaco, Roberto Santiago, citou o trabalho da documentarista Renata Ketendjian, que acompanhou 23 pessoas dependentes de apostas e recebeu notícia da morte por suicídio de oito delas. Quem precisar de apoio emocional pode ligar para o CVV pelo telefone 188, serviço gratuito e sigiloso disponível 24 horas por dia.














