Sete dos dez agrotóxicos mais vendidos no Brasil têm o uso proibido na União Europeia. O dado é de um levantamento da geógrafa Larissa Mies Bombardi, pesquisadora do Instituto de Pesquisa para o Desenvolvimento (IRD), apresentado na sexta-feira (31) durante a 78ª Reunião Anual da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), na Universidade Federal Fluminense (UFF), em Niterói, na região metropolitana do Rio de Janeiro.

Na lista dos dez mais utilizados no país em 2023, apenas o glifosato e seus sais, o glufosinato (sal de amônio) e a malationa ficaram fora da lista de proibidos no bloco europeu. Os outros sete — mancozebe, 2,4-D, acefato, clorotalonil, atrazina, S-metolacloro e dibrometo de diquate — estão banidos lá.

"São proibidos porque são cancerígenos ou porque provocam malformação fetal ou outros distúrbios hormonais, ou porque provocam severos impactos no ambiente", afirmou a pesquisadora.

Três mil toneladas em um ano

Segundo o levantamento, o Brasil recebeu 3 mil toneladas de pesticidas proibidos na União Europeia em 2023, volume superior ao que foi exportado para Ucrânia, Estados Unidos e Rússia somados, que ficaram em 2,6 mil toneladas. É esse fluxo que a pesquisadora classifica como "colonialismo químico" — a exportação, por países do Norte Global, de substâncias que eles próprios não admitem em seu território.

"O Brasil se submete ao colonialismo químico por aceitar em terras nacionais o uso de substâncias proibidas na UE", disse Bombardi. Para ela, o problema não se explica só pela regulação: "A gente nunca vai entender o uso de agrotóxicos no Brasil se a gente não entender a questão fundiária". A geógrafa também apontou concentração de mercado — quatro empresas dominam 51% do setor de sementes e 62% do de agrotóxicos — e citou o declínio de 41% no número de insetos no mundo entre 2009 e 2019, com queda de 53% no caso das borboletas.

Bombardi vive na Bélgica desde 2021, afastada da Universidade de São Paulo, depois de receber ameaças na sequência da publicação, em 2019, de um atlas sobre resíduos de agrotóxicos em alimentos brasileiros.

O que dizem os órgãos reguladores

Em resposta ao levantamento, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) afirmou que cada país tem "regramento próprio para a concessão e manutenção de registros" e que, no Brasil, os registros têm prazo de validade indefinido. Desde 2006, a agência concluiu 20 reavaliações de ingredientes ativos: 13 foram proibidos, 6 mantidos com restrições e 1 mantido sem restrições.

Entre os ingredientes já banidos pela agência estão carbendazim, carbofurano, endossulfam, lindano, metamidofós, paraquate e triclorfom. Na lista de prioridades mais recente, quatro substâncias seguem em reavaliação — tiofanato-metílico, epoxiconazol, procimidona e clorpirifós — e duas aguardam o início do processo, linurom e clorotalonil, este último um dos sete apontados pelo levantamento como proibidos na Europa. Em julho deste ano, a Anvisa reprovou o registro de três novos agrotóxicos.

A avaliação ambiental do registro cabe ao Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), e o registro dos defensivos agrícolas é responsabilidade do Ministério da Agricultura e Pecuária.