A guerra no Irã, iniciada em 28 de fevereiro, voltou a apertar o mercado global de petróleo no fim de julho — e o efeito chega ao Brasil pela via mais sensível: o diesel. O barril do tipo Brent fechou o mês passado com alta de 24% e o WTI, com alta de 21%, na maior valorização mensal desde março, segundo levantamento do InfoMoney. No pregão de 31 de julho, o Brent avançou US$ 1,14 (1,3%), a US$ 90,17 por barril, e o WTI subiu US$ 2,35 (2,8%), a US$ 85,94.
O gatilho continua sendo o Estreito de Ormuz, passagem que antes escoava cerca de um quinto de todo o petróleo e gás natural do mundo. A Guarda Revolucionária do Irã impediu dois petroleiros de transitar pelo estreito e outros quatro navios mudaram de rota, segundo o balanço divulgado em 31 de julho. Dois superpetroleiros conseguiram sair na sexta-feira, mas o tráfego seguiu escasso. Irã e Omã ainda negociam a gestão da passagem, apesar de Teerã ter rejeitado a proposta de administração conjunta, informou a Agência de Notícias Trabalhista Iraniana.
"O mercado deixou de negociar com base na guerra e passou a negociar com base nos dados de transporte marítimo", resumiu Ole Hvalbye, analista de mercado da SEB Research.
Alerta dos EUA e escalada militar
Neste sábado (1º), as embaixadas dos Estados Unidos em Amã (Jordânia), Jerusalém (Israel) e Bagdá (Iraque) emitiram alertas de segurança pedindo que cidadãos americanos considerem deixar a região. "Os americanos que estão na região deveriam considerar partir, ou estar preparados para fazê-lo em caso de agravamento", diz a orientação.
Na Jordânia, a recomendação foi evitar bases militares americanas que sofreram ataques com mísseis iranianos; em Israel, a orientação foi localizar abrigos antiaéreos. Os avisos alertam ainda para possíveis cancelamentos de voos e fechamentos do espaço aéreo. Na semana anterior houve retomada de ataques noturnos entre Irã e Estados Unidos, além de ataques com drones contra navios americanos em portos egípcios — mas não houve registros na noite de sexta-feira.
Por que isso mexe no bolso do brasileiro
O aperto não é só no petróleo bruto. Segundo análise do JPMorgan divulgada em julho, os fluxos confirmados pelo Estreito de Ormuz caíram para 5,1 milhões de barris por dia, ante 12,5 milhões uma semana antes, e as exportações de produtos refinados do Golfo recuaram de 1,9 milhão para 1,2 milhão de barris diários. Os chamados cracks de diesel — a margem entre o preço do combustível e o do petróleo — "dispararam para perto de recordes históricos" nos Estados Unidos e na Europa, enquanto as exportações russas de diesel ficaram próximas de zero.
É aí que o Brasil fica exposto: o país depende de importações para cerca de 30% do diesel que consome e cerca de 10% da gasolina, conforme a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP). Em março, quando as importações caíram cerca de 60% nos primeiros 17 dias do mês na comparação anual, a agência reconheceu uma "situação excepcional de risco" no mercado brasileiro de combustíveis.
A resposta do governo tem sido segurar o repasse ao consumidor com dinheiro público. Em 24 de julho, o ministro do Planejamento e Orçamento, Bruno Moretti, afirmou que o subsídio de R$ 0,35 por litro do diesel, encerrado em 1º de julho, não será retomado — mas que o de R$ 1,12 por litro será mantido. "Considerando nossa estratégia de suavização de preços, é preciso olhar o que está acontecendo no preço final ao consumidor. Hoje, entendemos que é importante manter o subsídio de R$ 1,12, segurar um pouco a estratégia de retirada gradual tendo em vista a piora do cenário", disse o ministro.
A conta é pesada: o subsídio ao diesel custa cerca de R$ 5,5 bilhões por mês e o da gasolina, de R$ 0,44 por litro, mais R$ 1,3 bilhão mensais. Para o mercado, o quadro divide o setor no Brasil: a Petrobras ganha na exploração e produção, mas enfrenta pressão política maior sobre os preços domésticos, enquanto a PRIO captura de forma mais linear o Brent elevado, por ter menos exposição a essa pressão, segundo avaliações de JPMorgan e Genial Investimentos. As projeções do JPMorgan apontam Brent médio de US$ 86 por barril no terceiro trimestre e US$ 80 no quarto, com média de US$ 85 em 2026 e queda para US$ 63 em 2027 num cenário de normalização.














