O governo brasileiro recusou, em maio de 2025, um pedido dos Estados Unidos para classificar o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas. Um ano depois, em maio de 2026, o Departamento de Estado americano fez a designação sozinho, sem o aval do Brasil.
O pedido inicial partiu de David Gamble, líder da estratégia de sanções do Departamento de Estado, em reunião em Brasília. O secretário nacional de segurança pública, Mario Sarrubo, recusou: "não temos organizações terroristas aqui, temos organizações criminosas que se infiltraram na sociedade".
Segundo Sarrubo, a lei brasileira reserva o termo "terrorista" a grupos que atacam o Estado por motivação religiosa ou racial, critério que não se aplica às duas facções. O FBI já relatava células das facções em 12 estados americanos.
Como os EUA decidiram agir sozinhos
Em 28 de maio de 2026, o Departamento de Estado classificou PCC e Comando Vermelho como "Terroristas Globais Especialmente Designados". A designação passou a valer em 5 de junho, com base na Seção 219 da lei de imigração dos EUA.
"O governo Trump vai continuar usando todos os recursos disponíveis para proteger nossos interesses de segurança nacional e negar financiamento a narcoterroristas", disse o secretário de Estado, Marco Rubio, à época.
A diferença de rótulo tem efeito prático: a classificação de terrorista abre caminho, no arcabouço legal dos EUA, para sanções a bancos que negociem com membros das facções e até para ação militar americana em território estrangeiro.
Em relatório enviado ao Congresso em 15 de setembro, o governo Trump afirmou que o Brasil "não conseguiu enfrentar" as duas facções, que teriam transformado o país num centro dos fluxos globais de cocaína.
No dia seguinte, os EUA citaram o Brasil como "centro global da cocaína" na lista antidrogas anual, mas não o incluíram entre os países que "falharam" no combate ao narcotráfico.
O Ministério da Justiça brasileiro rebateu a acusação em nota, citando dezenas de milhares de operações contra o crime organizado e bilhões de reais de prejuízo impostos aos criminosos.
Lula já havia levado a Washington proposta de cooperação contra lavagem de dinheiro e tráfico de armas. O Brasil sancionou o Marco Legal do Combate ao Crime Organizado, com R$ 11,1 bi no programa Contra o Crime Organizado.
O ponto em aberto
A divergência não é só semântica: chamar as facções de terroristas abre, no direito americano, uma porta que a categoria "organização criminosa" não abre.
O Brasil manteve sua definição jurídica mesmo sob pressão direta. Falta saber se o impasse se resolve pela cooperação que Lula propôs em maio, ou se novas sanções unilaterais dos EUA vão testar essa fronteira.
O que acontece agora
Nos próximos dias, o governo brasileiro deve decidir se responde formalmente à acusação de Trump, enquanto Washington avalia novas sanções contra indivíduos, empresas ou financiadores ligados às duas facções.





























