O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) planeja aplicar no Itamaraty, se eleito presidente, o modelo do secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, segundo apuração da Folha de S.Paulo. A proposta prevê fim da promoção por tempo de carreira e metas de exportação para diplomatas.

A proposta também concentra a diplomacia em um grupo de 35 países prioritários, batizado de G35, que reuniria as nações do G20. A ideia é atribuída a Marcos Degaut, braço-direito do ex-deputado Eduardo Bolsonaro em política externa.

Degaut vem apresentando o plano a diplomatas e formuladores em reuniões fechadas. A Folha ouviu cinco pessoas que participaram dessas conversas. Ele chama o projeto de "reforma do Marco Rubio".

Embaixadas menores dariam lugar a postos únicos, com mais orçamento e pessoal. Na África, por exemplo, África do Sul e Egito concentrariam a representação brasileira no continente, segundo o plano relatado à Folha.

Degaut diz se opor a um alinhamento automático aos Estados Unidos e defende manter os laços econômicos com a China. Ao mesmo tempo, defende intensificar as relações com Washington, com acordos comerciais e em minerais críticos.

Ele quer reduzir a dependência de Pequim nas exportações de commodities.

Degaut cita os Emirados Árabes Unidos como modelo de "realismo propositivo". Prioriza relações com países do G20, Israel e a América Latina governada pela direita.

O que muda no sistema de promoções?

As promoções deixam de seguir o tempo de casa e passam a valer por mérito, aferido por metas de exportação, investimento e inserção comercial cumpridas por cada diplomata, segundo o plano que Degaut apresenta a diplomatas e formuladores de política externa.

No Departamento de Estado americano, o mesmo modelo eliminou 1.300 vagas e fechou departamentos inteiros. As indicações políticas bateram recorde, em substituição a funcionários de carreira.

"O Brasil perdeu completamente a capacidade de pensar de maneira estratégica", disse Degaut, ex-secretário especial de Assuntos Estratégicos da Presidência. Ele classificou a diplomacia do governo Lula como "motivo de vergonha, de chacota".

A proposta reacende uma tensão antiga entre a família Bolsonaro e a carreira diplomática. Em 2025, a indicação de Eduardo Bolsonaro para a embaixada em Washington foi criticada por diplomatas de carreira.

O ex-embaixador Rubens Ricupero chamou a escolha de algo "sem nenhum precedente, nem na nossa história, nem na de nenhum país civilizado democrático". Eduardo Bolsonaro hoje pressiona por sanções dos EUA contra Alexandre de Moraes.

O chanceler Mauro Vieira já criticou declarações de Rubio como ofensivas ao Brasil, em meio ao tarifaço americano contra produtos brasileiros.

A Abin elevou a nível crítico o risco de interferência dos EUA nas eleições deste ano.

O que acontece agora

O primeiro turno das eleições presidenciais acontece neste domingo (4). O segundo turno, se houver, fica marcado para 25 de outubro.

A reforma no Itamaraty depende da vitória de Flávio Bolsonaro. Não há cronograma definido além do que Degaut vem apresentando em conversas reservadas com diplomatas e formuladores de política externa.