14 países latino-americanos aderiram nesta semana a uma declaração do Escudo das Américas, aliança de segurança dos Estados Unidos contra o crime organizado. O Brasil ficou fora, o que expõe a dificuldade do governo Lula em manter uma agenda própria de integração regional.

O movimento ocorre em paralelo a uma ampliação da presença de Washington no continente, com mais recursos e cooperação militar para parceiros regionais. Para o Brasil, o desafio é manter o diálogo com vizinhos que seguem estratégicos, mesmo sob governos diferentes.

Desde 2023, o governo Lula tenta contrapor esse avanço com uma agenda própria, aprovada no Consenso de Brasília para coordenar infraestrutura, segurança, saúde e economia na região. O plano prevê cinco corredores rodoviários ligando estados brasileiros a portos do Pacífico.

A Argentina de Javier Milei é o caso mais evidente dessa reorientação. O presidente argentino já atacou Lula publicamente na ONU e reafirmou apoio a Flávio Bolsonaro, favorito da oposição na eleição brasileira de outubro.

A relação já tinha piorado em agosto, quando o Brasil rebaixou a relação diplomática com o governo de Milei e o embaixador argentino deixou Brasília em resposta.

Milei também defende que cada país do bloco negocie acordos comerciais com os Estados Unidos de forma individual, o que tensiona a Tarifa Externa Comum do Mercosul.

A disputa também é comercial: o Brasil resiste a acordos que rachem o bloco, enquanto Milei aposta em negociar sozinho com Washington.

A guinada argentina aparece também no comércio exterior: a China ultrapassou o Brasil como maior fornecedor da Argentina em agosto, sinal de que Buenos Aires diversifica parcerias mesmo ao se aproximar dos Estados Unidos.

O ponto em aberto

Fica em aberto se o Brasil consegue reunir os vizinhos em torno do Consenso de Brasília antes que a aproximação com os Estados Unidos avance mais, e se o impasse sobre acordos bilaterais no Mercosul se resolve a favor de Buenos Aires ou de Brasília.