Alice (nome fictício), de Brasília, tinha 23 anos quando ouviu da psicóloga que deveria doar a gata que acabara de adotar. Segundo ela, a profissional disse que o animal incomodava o namorado dela e que o relacionamento deveria ser prioridade.

Na época, Alice estava afastada de quase todos os amigos e tinha adotado a gata porque se sentia sozinha. Ela não seguiu o conselho, mas o caso expõe uma discussão sobre o papel do psicólogo nas decisões da vida do paciente.

Até onde o psicólogo pode opinar nas decisões do paciente?

Para Joeder da Silva Messias, psicólogo e professor da UESB (Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia), quem conduz a terapia não deve decidir pelo paciente nem indicar qual caminho seguir. Isso pode limitar a autonomia da pessoa e criar dependência.

Para a presidente do CFP (Conselho Federal de Psicologia), Ivani Oliveira, preservar essa autonomia não significa se omitir. O profissional pode ajudar a identificar os fatores envolvidos, levando em conta a história e o contexto de vida do paciente.

Isso vale, por exemplo, para dúvidas sobre terminar um relacionamento ou mudar de emprego. Nesses casos, a decisão deve partir dos referenciais da própria pessoa.

"O ideal que a pessoa tem para si não pode ser o ideal que o profissional tem para ela", diz Oliveira.

Com Alice, as orientações não pararam na gata. Durante as sessões, a psicóloga passava o que chamava de "deveres de casa". Numa delas, orientou a jovem a tomar a iniciativa de ter relações sexuais com o namorado, depois que Alice relatou problemas no relacionamento.

Segundo Alice, a terapeuta afirmou que ela estava "liberando pouco" e que ceder fazia parte do papel da mulher, segundo a própria psicóloga — leitura que nenhum dos dois especialistas ouvidos pela Folha endossa.

Messias afirma que a convivência com figuras de autoridade, como pais, professores e chefes, pode reforçar o peso desse tipo de fala. Segundo ele, essa expectativa também aparece nos cuidados de saúde, em que o paciente costuma receber instruções sobre o que fazer.

"Muitas pessoas chegam na psicoterapia esperando respostas prontas e, quando encontram alguém disposto a oferecê-las, dificilmente percebem de início que essa conduta é inadequada", diz Messias.

Para ele, cabe ao psicólogo romper essa lógica. Ao direcionar escolhas, o profissional pode acabar "tomando para si a responsabilidade pelas decisões da vida de outra pessoa", o oposto do que a terapia deveria fazer.