Uma tese de doutorado da Unicamp mostra como a falta de reconhecimento no trabalho adoece trabalhadores. O pesquisador Ricardo Bertoni Pompeu, da Faculdade de Ciências Aplicadas, ouviu 18 trabalhadores de setores como supermercados e escolas de idiomas para chegar à conclusão.

O estudo, destaque no Jornal da Unicamp, virou a tese "Reconhecimento no ambiente de trabalho: indo além da Justiça Organizacional". Lista assédio, presenteísmo, metas inalcançáveis, estagnação, falta de recursos e invisibilização como riscos que se acumulam sobre quem trabalha.

A inspiração veio da convivência de Pompeu com alunos da Fatec de Americana, a maioria de famílias de baixa renda, que estuda e trabalha ao mesmo tempo. "Eles estudam e trabalham exaustivamente, mas são sempre cobrados por aquilo que não fazem", diz o pesquisador.

"Não basta o que já estão fazendo, pois sempre deveriam fazer mais, além do que recebem e do que lhes é pago. O reconhecimento é como se fosse um eterno devir, mas que nunca chega", completa Pompeu.

Por que o corpo não aguenta a cobrança constante?

A pesquisa se apoia na Teoria do Reconhecimento, do filósofo alemão Axel Honneth, e na Psicodinâmica do Trabalho, do psiquiatra francês Christophe Dejours. "O corpo não aguenta. A supressão do limite humano leva ao adoecimento", resume Pompeu.

Dejours descreve o "trabalho real": o esforço cognitivo e físico invisível para executar uma tarefa. Pompeu batizou dois fenômenos que viu nos relatos: a contingencialidade, a disponibilidade contínua esperada do trabalhador, e a disjuntividade, o apagamento do seu histórico.

Para o pesquisador, reconhecimento não pode depender só da boa vontade da chefia: precisa ser normatizado, de forma a gerar autonomia e emancipação para quem trabalha.

O que a lei já exige das empresas?

Desde que as novas diretrizes de saúde mental no trabalho entraram em vigor, em maio de 2026, empregadores são obrigados a identificar, avaliar e prevenir riscos psicossociais como sobrecarga e assédio moral, registrando as medidas no Programa de Gerenciamento de Riscos.

A fiscalização ficou suspensa por 90 dias, por decisão do ministro André Mendonça, do STF, a pedido da Confederação Nacional dos Estabelecimentos de Ensino. O prazo terminou no dia 23 e as multas voltaram a valer.

O que acontece agora

Com a fiscalização normalizada, o Ministério do Trabalho pode voltar a autuar quem não tratar os riscos psicossociais. Os afastamentos por saúde mental já caíram 13% no semestre, mas documentar o risco no papel não basta sem mudar a relação com quem trabalha.