As exportações de carne bovina do Brasil para a China caíram 19,7% em agosto ante o mesmo mês de 2025, aponta o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC). O recuo aconteceu porque o país asiático se aproximou do limite da cota anual isenta de tarifa extra, e frigoríficos já reduzem turnos para não pagar sobretaxa de até 67%.

Como funciona a cota e a sobretaxa

Segundo o Ministério do Comércio da China, a cota para 2026 é de 1,106 milhão de toneladas, 35% menor que o 1,70 milhão de toneladas embarcado em 2025. O volume avançou de 80% da cota em 21 de julho para 90% em 10 de agosto.

Três dias depois de o limite chegar a 100%, entra em vigor uma sobretaxa de 55 pontos percentuais sobre a alíquota já cobrada. A tarifa total pode chegar a 67%.

Diante do risco, frigoríficos brasileiros já reduziram turnos, decretaram férias coletivas e suspenderam contratos, segundo levantamento da consultoria China.org.br. Em julho, os embarques para a China já haviam caído 47% frente a junho.

O aperto ajudou a empurrar a arroba do boi rumo aos R$ 380 com a exportação travada, mostrou a TV Sim Brasil no início do mês.

A China responde por 47% da receita e 45% do volume das exportações totais de carne bovina do Brasil, a maior concentração entre os parceiros comerciais do setor.

O aperto chinês na carne contrasta com o resto do comércio exterior do país. As exportações globais da China somaram US$ 401,44 bilhões em agosto, alta de 25% sobre agosto de 2025, segundo dados oficiais chineses.

O impulso veio de carros, com alta de 53,2% nas vendas chinesas ao mundo, e de produtos de alta tecnologia, que subiram 42,9%. O mesmo país que bate recorde vendendo ao mundo é o que mais aperta a compra do produto brasileiro mais dependente dele.

O recuo bilateral não contaminou o resultado geral do Brasil. O superávit da balança comercial somou US$ 7,4 bilhões em agosto, alta de 23,8% sobre agosto de 2025 e o terceiro melhor resultado da série para o mês, segundo a Agência Brasil.

No acumulado do ano, as vendas brasileiras à China ainda crescem 15%, para US$ 77 bilhões, puxadas por outros produtos. Também recuaram em agosto o minério de ferro, a soja e o açúcar, segundo o MDIC.

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O que acontece agora

O governo brasileiro negocia com Pequim rever o formato da cota a partir de 2027. Nessa data, o limite sobe para 1,13 milhão de toneladas, e para 1,15 milhão em 2028, conforme cronograma já acertado entre os dois países.

A renovação ocorre em 1º de janeiro. Frigoríficos e produtores já buscam alternativas nos Estados Unidos, no Oriente Médio e em outros mercados asiáticos para o restante do segundo semestre.

O ponto em aberto

O reajuste já combinado para 2027 é de apenas 2,2% sobre a cota atual, número pequeno diante do corte de 35% que a China aplicou para este ano.

Falta saber se a negociação em curso vai propor algo além desse aumento já previsto, ou se o aperto no segundo semestre volta a se repetir todo ano, com frigoríficos gerindo embarques para não estourar o limite.