O Brasil vendeu US$ 15,1 bilhões em petróleo à China no primeiro semestre de 2026, recorde para o período e alta de 62% sobre o mesmo intervalo de 2025. O avanço aconteceu enquanto a guerra entre Irã, Israel e Estados Unidos mantinha bloqueado o Estreito de Ormuz, rota de cerca de 20% do petróleo mundial.
O estreito está praticamente fechado desde 28 de fevereiro de 2026, quando Estados Unidos e Israel atacaram o Irã e mataram o líder supremo Ali Khamenei. Em resposta, a Guarda Revolucionária iraniana passou a atacar navios mercantes e colocar minas na via. Até o fim de julho, menos de 10 navios haviam cruzado o estreito, contra cerca de 100 embarcações por dia antes da guerra.
Com o principal fornecedor do mercado chinês estrangulado, o volume de petróleo brasileiro embarcado para a China subiu 41% no semestre, e o preço do produto avançou 15,7%. Março, abril e junho de 2026 registraram os maiores faturamentos mensais da série histórica do Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC), iniciada em 1997.
Quem ganha e quem se arrisca com essa mudança?
A China ganha uma fonte de abastecimento mais estável, diversificando a dependência do Oriente Médio em um momento de guerra. O Brasil ganha receita e um papel mais central no mercado global de petróleo, turbinado ainda pela produção recorde da Petrobras.
Mas analistas apontam que essa mesma concentração das vendas em um único grande comprador reduz a diversificação e aumenta a dependência externa do Brasil. Qualquer mudança na crise em Ormuz pode alterar preços, demanda e fluxo de forma rápida, e o país não tem controle sobre esse tabuleiro geopolítico.
A produção doméstica também bateu recorde: o Brasil extraiu 4,498 milhões de barris de petróleo por dia em julho de 2026, alta de 13,6% sobre julho de 2025, com o pré-sal respondendo por 82,4% do total, segundo a Agência Nacional do Petróleo (ANP).
O mesmo conflito que turbina as exportações também empurrou o petróleo para perto de US$ 100 o barril e pressionou o dólar no mercado brasileiro, em setembro.
O mesmo conflito já foi tema de idas e vindas: em agosto, uma negociação sobre Ormuz chegou a avançar e derrubou o preço do petróleo, levando a Petrobras a reduzir o preço da gasolina, mas o quadro se inverteu com a retomada das hostilidades.
O que acontece se a guerra no Irã terminar
Não há, nos dados oficiais disponíveis, previsão de quando a crise no Estreito de Ormuz será resolvida. O que os números mostram é que a receita bilionária do Brasil com a China está amarrada a um conflito que o país não controla nem tem como prever.
Se o fluxo do Oriente Médio for retomado, a pergunta que fica é se o Brasil vai manter o espaço conquistado no mercado chinês pela qualidade e pelo preço, ou se a fatia recorde de hoje foi, sobretudo, um efeito temporário da guerra.






































