Óculos inteligentes com câmera, como os Ray-Ban Meta, viraram alvo de restrições em bares e tribunais de Londres e de denúncia formal do Idec e da Coding Rights à ANPD e ao MPF no Brasil. A EssilorLuxottica vendeu 7 milhões de pares em 2025.
A EssilorLuxottica, parceira da Meta, contabilizou 7 milhões de pares vendidos em 2025. A resistência é mais forte entre os dispositivos que tentam suceder o smartphone, mercado de mais de US$ 600 bilhões.
O motivo é simples. O dispositivo grava sem que ninguém perceba. O tema também rende multas bilionárias fora dos óculos, como mostra a multa que a União Europeia aplicou ao Google, de € 403 milhões, por dados de localização.
O que já foi restringido no Reino Unido
Pubs, teatros e restaurantes do centro de Londres passaram a limitar o uso dos óculos. A rede de pubs Wetherspoon restringiu o dispositivo em suas unidades, e uma proibição em vigor desde agosto veda o uso em salas de tribunal no Reino Unido.
Irina Raicu, diretora do programa de ética na internet do Markkula Center for Applied Ethics da Santa Clara University, resume o motivo à CNN: "Fica cada vez mais difícil se proteger apenas olhando ao redor e verificando o ambiente".
Para ela, o consentimento está se desintegrando diante da câmera quase invisível.
Anúncios contra os óculos já apareceram em estações de ônibus de Londres. Um deles satiriza a campanha de Kylie Jenner para a Meta, transformando-a num raio-X esquelético com o alerta "Estamos Sempre Assistindo".
A denúncia no Brasil
No Brasil, o Idec e a Coding Rights formalizaram denúncia à ANPD, à Senacon e ao MPF em 20 de agosto, sobre os riscos dos óculos Ray-Ban Meta, já vendidos no país desde 2025 por R$ 3.299.
Julia Abad, do Idec, afirmou: "uma empresa que colocou no mercado um produto perigoso, e transferiu para quem nem sequer comprou o dispositivo a tarefa de se proteger dele".
Joana Varon, da Coding Rights, disse: "a filmagem imperceptível não cria um risco novo em terreno neutro. É mais uma ferramenta que habilita o crescimento da violência de gênero".
A denúncia cita um médico ginecologista de Salvador, flagrado usando o óculos durante atendimento a uma paciente. Ela se soma a outras batalhas da ANPD por privacidade, que já multou o TikTok em R$ 153,7 milhões por falhas na proteção de dados de menores.
O que acontece agora
A Meta realiza sua conferência Connect nesta semana e deve apresentar óculos inteligentes sem câmeras, segundo o The Information. Samsung e Google preparam um modelo conjunto para o outono, enquanto a indústria testa broches e pingentes como alternativas menos invasivas.
"Os formatos vencedores serão aqueles que tornarem a interação mais natural, útil e confiável", afirmou Jay Kim, vice-presidente executivo da divisão de dispositivos móveis da Samsung, à Reuters. A Samsung deve entrar no mercado neste ano.
O impasse não é novo. O Google Glass, lançado em 2012, teve as vendas suspensas em 2015 depois que uma pesquisa apontou que 72% dos americanos rejeitavam o dispositivo por preocupação com privacidade. Restaurantes e cinemas chegaram a proibir o aparelho na época.
O desafio agora é saber se o consentimento sobrevive a uma câmera que ninguém vê. Enquanto isso, cresce a busca por controles manuais de privacidade, como o guia para limitar o acesso do Gemini a e-mails e fotos no Gmail.





























