O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, repetiu nesta terça-feira (22), na Assembleia Geral da ONU, a ameaça de usar força militar contra qualquer país da América Latina. A fala reproduz o discurso que antecedeu a prisão do venezuelano Nicolás Maduro, em janeiro.

No discurso de quase 40 minutos, o presidente americano repetiu a ameaça de força.

Se necessário, usaremos nosso poderio militar incomparável para garantir os interesses nacionais vitais dos Estados Unidos.

A fala aconteceu no mesmo dia em que a aprovação do governo Trump caiu para 32%, o índice mais baixo do mandato, a seis semanas das eleições de meio de mandato nos EUA.

Sobre o Irã, Trump foi mais longe. Ameaçou "aniquilar a República Islâmica" caso o país não aceite um novo acordo nuclear, no trecho que tomou mais tempo do discurso, marcado por acusações de que Teerã financia o terrorismo.

O Irã reagiu na mesma noite. O Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica disse que um novo ataque não traria "nada além de fracasso". O presidente do Parlamento iraniano, Mohammad Bagher Ghalibaf, reforçou que o país não vai se render.

Por que isso importa para o Brasil

O trecho sobre a América Latina repete quase as mesmas palavras usadas antes da prisão de Maduro, em janeiro. A fala chega um dia depois de 14 países classificarem PCC e Comando Vermelho como terroristas, com o Brasil de fora do acordo.

A escalada já vinha de antes. Na semana passada, os Estados Unidos prepararam novas sanções a brasileiros ligados a PCC e CV.

Especialistas em relações internacionais já apontavam esse risco desde a prisão de Maduro. "Todos os Estados da nossa região estão à mercê da intervenção dos Estados Unidos", disse Williams Gonçalves, professor da Uerj e pesquisador do INCT-INEU.

Antonio Jorge Ramalho da Rocha, professor de relações internacionais na UnB, vai direto ao ponto. Para ele, o precedente vale para qualquer governo da região, incluindo o brasileiro.

"Se está acontecendo agora com a Venezuela, não nos iludamos, poderá acontecer amanhã com a Colômbia, com o Brasil, com o Peru", disse Ramalho da Rocha, em entrevista à Agência Brasil.

O governo brasileiro não aderiu à lista de sanções contra PCC e CV. Defende que o combate às facções siga sob legislação nacional, com soberania preservada, o mesmo argumento que Lula usou na ONU para criticar as operações militares dos EUA na região.

Maduro está preso em Nova York desde 3 de janeiro, quando uma operação americana na Venezuela resultou na captura do então presidente venezuelano (o precedente mais concreto da região para a ameaça repetida nesta semana).

O ponto em aberto

Trump não citou o Brasil no discurso desta terça. Mas a doutrina que envolveu a Venezuela é a mesma que os professores da Uerj e da UnB apontam como risco para qualquer país da região.

O Brasil, ao ficar fora do Escudo das Américas, optou por não aderir ao alinhamento que os outros catorze países escolheram. Fica em aberto se a soberania alegada pelo governo pesa mais, nesse cálculo, do que a proteção que a aliança promete aos signatários.