Mulheres candidatas receberam proporcionalmente mais comentários ofensivos do que homens no início da campanha eleitoral de 2026, segundo o MonitorA. O levantamento analisou X, TikTok e YouTube entre 16 e 24 de agosto e mostra ataques para deslegitimar a presença feminina na política.

O projeto acompanha violência política de gênero nas plataformas desde 2020. Nesta edição, o recorte inicial indica que o problema aparece antes do voto, ainda na fase de disputa por visibilidade.

No X, seis em cada dez ofensas mapeadas contra mulheres foram direcionadas a candidatas ao Senado. Marina Silva concentrou 32% dos 1.318 ataques e insultos identificados na plataforma; Érika Hilton teve 23%, e Bia Kicis, 11%.

O que os ataques têm em comum?

Os ataques têm em comum a tentativa de deslocar a candidata do debate público para sua identidade, corpo, gênero ou pertencimento político. A literatura chama esse mecanismo de violência semiótica, quando linguagem e símbolos operam para deslegitimar mulheres como agentes políticas.

Um estudo citado pelo MediaTalks, em parceria com o UOL, analisou mais de 3,2 milhões de respostas no X a 88 candidatos ao Parlamento Europeu. Quase 80% dos candidatos receberam respostas tóxicas, mas mulheres tiveram mais ataques em números absolutos.

A diferença está também na intensidade. Nas respostas tóxicas dirigidas a mulheres, 62% reuniam dois ou mais elementos abusivos; entre homens, 52% tinham apenas um.

O ataque contra mulheres tende a combinar insulto político, sexismo e tentativa de expulsão simbólica do espaço público.

Por que isso pesa nas eleições?

Isso pesa nas eleições porque a violência online reduz custo para ataques coordenados e aumenta o risco pessoal de disputar mandato. A TV Sim já mostrou que as mulheres são só 17,2% da Câmara, mesmo sendo maioria do eleitorado.

Dados citados pela Agência Brasil mostram que, em 2024, mulheres ocuparam 18,2% das cadeiras nas câmaras municipais. O mesmo levantamento registrou violência moral em 59% dos relatos, com calúnias, difamação e injúrias para prejudicar o exercício do mandato.

O problema também se cruza com raça e identidade de gênero. Segundo a TV Brasil, a pesquisadora Amanda de Albuquerque afirmou que o racismo estrutural atinge 81% das mulheres negras em cargos legislativos municipais que já sofreram violência durante o mandato.

A resposta institucional passa por monitoramento, regras de plataforma e Justiça Eleitoral. Em Minas, ALMG e TRE-MG lançaram campanha contra desinformação eleitoral, uma frente que conversa com ataques digitais contra candidaturas.

O que muda com a IA?

O que muda com a IA é a escala e o tipo de agressão possível. Artigo publicado na SciELO em 2026 aponta deepfakes como nova fronteira da violência política de gênero e raça, com uso de conteúdo sintético para atacar reputações.

A regra eleitoral já chegou a esse debate. O TSE proibiu sistemas de inteligência artificial de recomendar voto, e empresas de IA assinaram acordo com a Justiça Eleitoral, como mostrou a TV Sim na cobertura sobre IA proibida de recomendar voto.

O próximo teste é aplicar essas regras sem transformar moderação em censura política. Sem resposta rápida, a agressão circula mais que a reparação.