O plano dos Estados Unidos de abrir duas novas bases na Groenlândia muda o acordo sobre a ilha ao converter a pressão de Donald Trump por controle territorial em presença militar ampliada no Ártico. Narsarsuaq e Mestersvig entram no pacote previsto para terça-feira (22).

A TV Sim já explicou por que o acordo sobre a Groenlândia não era anexação. A novidade é a escala militar: os EUA querem reabrir uma antiga base da Guerra Fria e ocupar uma instalação hoje usada por força especial dinamarquesa.

Durante a Guerra Fria, os americanos mantiveram 17 instalações e mais de 10.000 militares na Groenlândia, segundo as fontes ouvidas por Valor e CNN. Hoje, a presença permanente se concentra na Base Espacial de Pituffik, com cerca de 150 militares.

O salto não volta ao tamanho da Guerra Fria, mas muda a lógica: a Groenlândia deixa de ser só território cobiçado e vira plataforma militar negociada.

Por que a Otan entra no centro?

A Otan entra no centro porque a Dinamarca tenta enquadrar a segurança do Ártico como tema da aliança militar, não como acerto bilateral entre Washington e Copenhague. Segundo a CNN, esse é o argumento dinamarquês para o novo acordo.

Essa moldura reduz o custo político para Dinamarca e Groenlândia depois de meses de pressão de Trump, que não descartou força militar ou econômica para obter controle sobre o território. Valor e CNN registram que a crise levou os dois governos a negociar com Washington.

O texto do acordo ainda não foi divulgado. As fontes ouvidas pelos veículos falaram sob anonimato e disseram que os detalhes só ficam finalizados na assinatura prevista para a Assembleia Geral da ONU, em Nova York.

A primeira perspectiva é americana: ampliar presença em pontos do Ártico. A segunda é dinamarquesa: colocar a operação sob guarda da Otan. A terceira é groenlandesa: evitar que a autonomia vire moeda em uma disputa entre aliados maiores.

O que muda para o Brasil?

Para o Brasil, a mudança é indireta, mas relevante no tabuleiro diplomático da ONU. A mesma semana em que Lula fala de soberania reúne outro caso de pressão política sobre território estratégico.

Antes, Trump já havia usado mapa do Estreito de Ormuz como gesto territorial.

A TV Sim mostrou que os EUA já tinham garantido controle permanente sobre a segurança da Groenlândia. As novas bases indicam que esse controle começa a ganhar endereço, pista, porto e cadeia logística.

Narsarsuaq perdeu população desde o fechamento da base Blue West One nos anos 1950, segundo o Valor. Mestersvig, na costa leste, é usado pela Patrulha Sirius, unidade dinamarquesa de trenós puxados por cães.

O número que importa é a comparação: de 17 instalações no auge da Guerra Fria para uma base remanescente hoje, e agora um movimento para três pontos de presença. Isso explica por que a assinatura na ONU pesa mais que um comunicado militar comum.

O ponto em aberto

O ponto em aberto é se a supervisão da Otan será freio ou carimbo para a expansão americana. O acordo pode reduzir a pressão de anexação, mas também normaliza uma presença militar maior em território que Trump dizia querer controlar.