Sete meses depois do início da guerra entre Irã e Estados Unidos, iranianos comuns enfrentam alta vertiginosa no custo de vida. O bloqueio americano corta a exportação de petróleo, e no Brasil o reflexo já chega à bomba, com o Brent acima de US$ 108.

Em Teerã, o dono de restaurante Behnam Riazi contou à Reuters, em reportagem publicada pelo Valor, que não consegue repassar os custos aos clientes.

Sou obrigado a vender meus produtos com um lucro muito pequeno e insignificante, mas não posso fechar meu negócio porque, se o fizer, ficarei desempregado.

Riazi não eleva os preços porque os clientes não podem pagar mais. A maioria já compra apenas o essencial.

A dona de casa Hediyeh, de cerca de 60 anos, vive da aposentadoria do marido, ex-funcionário público, no norte do Irã. Ela mal consegue comprar remédios e fraldas geriátricas para a mãe idosa, que tem Alzheimer.

No início do ano letivo, a mochila do neto custava cinco a seis vezes mais do que ela esperava. Sobrou dinheiro só para um caderno e um lápis.

O Irã reforça o controle sobre as exportações de energia do Golfo pelo Estreito de Ormuz, rota por onde passa cerca de 20% do petróleo mundial. Isso elevou o preço de petróleo e gás nos Estados Unidos e no resto do mundo, aponta a Reuters.

O que muda no bolso do brasileiro

No Brasil, a guerra chega pelo preço dos combustíveis. Com o Brent acima de US$ 108 o barril e o dólar a R$ 5,15, a Petrobras vende diesel nas refinarias cerca de R$ 2,52 abaixo do preço de importação. A defasagem já chega a 5,8%.

Para o secretário do Tesouro Nacional, Rogério Ceron, a alta pode afetar a economia brasileira caso o petróleo passe dos US$ 100, patamar que a cotação já bateu no fim de setembro.

O economista-chefe da Suno Research, Gustavo Sung, calcula que cada 1% de alta na gasolina adiciona 0,05 ponto ao IPCA.

A Petrobras reajustou a gasolina para distribuidoras em 9 de setembro, elevando o preço médio de revenda para R$ 3,24 o litro. O impacto ao consumidor foi parcialmente neutralizado por um corte de R$ 0,63 nos impostos federais sobre o combustível.

O querosene de aviação já subiu 11,76% no país desde o início das tensões.

Nos Estados Unidos, o conflito já custou US$ 59,3 bilhões em combustível ao consumidor, média de US$ 452,59 por família, aponta a Exame. Os índices do petróleo valorizaram mais de 50% desde fevereiro, quando o Brent cotava US$ 73 o barril.

Em janeiro, mais de um mês antes do conflito começar, as autoridades iranianas mataram milhares de manifestantes que protestavam contra o sofrimento econômico acumulado. Hoje, os entrevistados dizem ter preocupações diárias demais para pensar em protestar de novo.

Em Nova York, negociadores dos dois países discutem uma saída gradual do conflito. Pelo plano em avaliação, o Irã reabriria o Estreito de Ormuz e Washington suspenderia o bloqueio que afeta a população.

O que acontece agora

As negociações entre Irã e Estados Unidos seguem em Nova York, sem data definida para um acordo. Enquanto isso, o presidente dos EUA já prometeu retomar bombardeios ao Irã após a eleição americana, o que manteria a pressão sobre os preços do petróleo.