Uma pesquisa da Avaaz em parceria com o instituto Datafolha liga a abstenção eleitoral no Brasil a fatores como solidão, exaustão mental e dependência digital. O levantamento, divulgado nesta quinta-feira (17), mostra que cerca de 30 milhões de eleitores deixaram de votar nos últimos pleitos.
O estudo mede hábitos e comportamento do eleitor, não a preferência por candidatos. Por isso, ele não é uma pesquisa de intenção de voto e não está sujeito ao registro eleitoral que o TSE exige para levantamentos de cenário de disputa.
Segundo o estudo, batizado de Termômetro do Bem Viver, um em cada três eleitores brasileiros se absteve nas eleições mais recentes.
O estudo descreve o fenômeno como uma "epidemia de solidão", somada ao esgotamento mental e ao uso excessivo de televisão e redes sociais entre os eleitores mais afastados da vida comunitária.
O levantamento classificou 47% dos entrevistados como "desvinculados", pessoas sem laços comunitários fortes que já deixaram de votar ou comparecem às urnas apenas raramente. Três em cada dez integrantes desse grupo abandonaram completamente o voto por falta de vínculo.
Os jovens aparecem em peso nesse grupo. Pessoas de 18 a 34 anos representam 44% dos "desvinculados", e apenas dois em cada dez afirmam ter uma conexão comunitária e, ao mesmo tempo, se sentir bem.
O achado reforça um cenário já estrutural. Em agosto, o peso do eleitorado jovem no Brasil caiu 22% em 16 anos, reflexo do envelhecimento da população brasileira.
Nana Queiroz, diretora do Projeto Desapocalíptica, da Avaaz, resume o padrão observado pela pesquisa. "Descobrimos que os 'desvinculados' estão em um ciclo muito destrutivo", disse a especialista, em entrevista à Agência Brasil.
"Elas buscam a TV e as redes sociais como uma espécie de anestesia para essa exaustão", completou Nana Queiroz.
O tema já apareceu antes em outro levantamento sobre o comparecimento às urnas no país. Segundo a nova pesquisa, brasileiros com vínculos comunitários mais fortes tendem a considerar a democracia um valor inegociável, ao contrário dos "desvinculados".
É esse contraste que a pesquisa usa para explicar o comportamento eleitoral. Para o estudo, o vínculo comunitário pesa tanto quanto a desilusão com a política na decisão de votar.
O levantamento foi divulgado a cerca de 17 dias da eleição, marcada para outubro. Segundo a pesquisa, reconquistar esses eleitores para as urnas exige políticas voltadas ao fortalecimento dos vínculos comunitários, e não apenas campanhas tradicionais de mobilização de voto.


























