Uma mulher de 52 anos, nas Filipinas, conviveu por quatro meses com dores de cabeça e alucinações visuais antes de procurar atendimento médico. Exames de imagem depois revelaram múltiplos cistos com larvas de tênia espalhados pelo cérebro dela, incluindo o cerebelo.

Com o tempo, o quadro neurológico piorou e ela passou a ter alterações na fala. Na avaliação clínica, estava acordada e alerta, mas não conseguia seguir instruções simples.

A tomografia mostrou várias lesões espalhadas pelo cérebro, e a ressonância revelou cistos nos lobos temporal, occipital, frontal e parietal. Dentro deles, pequenos nódulos formavam o chamado "sinal do ponto no buraco", característico da neurocisticercose.

O eletroencefalograma também registrou descargas elétricas anormais, o que levou os médicos a suspeitar de crises epilépticas. O caso foi descrito por médicos das Filipinas e publicado em julho no New England Journal of Medicine.

O tratamento combinou os antiparasitários praziquantel e albendazol com corticoides, para conter a inflamação, e levetiracetam, contra possíveis crises. Um mês depois, os sintomas haviam desaparecido e os cistos já estavam menores.

A recuperação foi rápida e completa, segundo o relato médico.

A neurocisticercose vem da ingestão dos ovos da Taenia solium, presentes em água, alimento ou superfície contaminados por fezes. Comer carne de porco malcozida não é o risco direto. Isso causa apenas a teníase, a infecção intestinal pela tênia adulta.

A neurocisticercose também ocorre no Brasil?

Sim. O Ministério da Saúde considera o país inteiro endêmico para a doença, com maior frequência em São Paulo, Minas Gerais, Paraná e Goiás. Só o Paraná já notificou mais de 5 mil casos desde 1994.

A neurocisticercose integra o grupo das chamadas doenças tropicais negligenciadas. No Brasil, a mesma categoria inclui a doença de Chagas, hoje com tratamento pediátrico aprovado pela Anvisa.

Outra é a malária, que no Brasil caiu ao menor nível desde 1978 com o uso de um novo remédio pelo SUS.

A prevenção passa por saneamento básico, tratamento de quem carrega a tênia adulta no intestino e cuidado com a higiene da água e dos alimentos, segundo especialistas.

Quais sintomas merecem atenção médica?

Dor de cabeça persistente, alucinações visuais, alterações na fala ou dificuldade para nomear objetos, e crise convulsiva sem explicação são sinais que pedem avaliação neurológica, ainda mais em quem vive em área sem saneamento adequado.

Sintoma neurológico incomum nem sempre tem causa óbvia. Outra reportagem recente mostrou como até uma montanha-russa pode lesionar o cérebro sem pancada nenhuma.