O presidente argentino Javier Milei chamou a ONU de inútil e retomou a reivindicação das Malvinas nesta quarta-feira (23), em discurso na Assembleia Geral. Por trás da retórica está uma disputa concreta sobre o projeto de petróleo Sea Lion nas águas do arquipélago.

"Tornou-se uma organização inútil cujo único propósito é sustentar uma casta de parasitas fatalmente arrogantes que se fazem passar por burocratas bem-intencionados", disse Milei, citando o economista liberal Ludwig von Mises.

"Para nós, as Malvinas são uma causa nacional", afirmou o presidente argentino. O arquipélago tem cerca de 3.660 habitantes, a maioria de origem britânica, com assembleia legislativa própria.

O Reino Unido controla as Malvinas desde 1833. Os dois países entraram em guerra em 1982, depois que a ditadura militar argentina tentou tomar o território à força; o Reino Unido venceu o conflito.

Milei citou a Resolução 3149 da ONU, aprovada há 50 anos, que pede a Argentina e Reino Unido que evitem mudanças unilaterais enquanto a disputa de soberania seguir aberta. "Cinquenta anos depois, a situação não mudou, mas as mudanças unilaterais continuam", disse.

O que está por trás da disputa agora?

O gatilho mais recente é o projeto Sea Lion, tocado pela britânica Rockhopper e pela israelense Navitas, em águas a 220 km das Malvinas. Milei assinou decreto para ampliar sanções contra empresas, acionistas e fornecedores ligados a projetos de petróleo não autorizados por Buenos Aires.

Só ontem, o governo argentino convocou o embaixador britânico em Buenos Aires para protestar contra a entrada da Navitas na exploração das Malvinas. A nota diz que o país não reconhece autoridade estrangeira para autorizar exploração na plataforma continental disputada.

O que diz o Reino Unido?

O governo britânico rebateu Milei. "As Ilhas Malvinas são britânicas porque os habitantes das Ilhas Malvinas escolhem ser britânicos", disse o ministro da Defesa, Wes Streeting, que classificou o discurso argentino como voltado à política interna.

Streeting disse que a fala de Milei "diz mais sobre a política doméstica na Argentina do que sobre as Ilhas Falkland", nome que o Reino Unido usa para o arquipélago. Londres defende o direito à autodeterminação dos moradores, a maioria de origem britânica.

A Argentina também enfrenta pressão econômica em casa. A dívida do país com o FMI deve triplicar até 2028.

No mesmo período, o PIB argentino cresce, mas o país compra menos do Brasil.

As duas partes seguem sem previsão de negociação direta. O Reino Unido diz que a soberania não está em discussão, e a Argentina mantém a ameaça de sanções às empresas ligadas ao Sea Lion.

O ponto em aberto

A Resolução 3149 da ONU pede diálogo entre os dois países há 50 anos, e nenhum deles cedeu. Enquanto o impasse diplomático se repete a cada Assembleia Geral, o Sea Lion segue extraindo petróleo nas águas disputadas.

A pergunta que fica é se a escalada de sanções muda algo na prática.