A Ucrânia retomou a tentativa de comprar 24 caças A-29 Super Tucano da Embraer para enfrentar drones russos, segundo a Folha e a agência Interfax-Ukraine. A negociação tenta contornar o veto do governo Lula ao envio de equipamento militar a Kiev.

O movimento foi anunciado pelo ex-presidente ucraniano Petro Poroshenko após reuniões na feira MSPO-2026, realizada de 8 a 11 de setembro na Polônia. Ele disse ter conversado com representantes da Embraer e afirmou que buscaria uma rota por um país da Otan.

"Nós chegamos a um acordo com a fabricante brasileira Embraer e selecionamos uma frota de 24 Super Tucano capazes de interceptar e destruir drones", disse Poroshenko, segundo a Folha.

A Folha informou que procurou a Embraer para esclarecer a natureza da conversa, mas ainda não havia recebido resposta. O cuidado importa porque a fala de Poroshenko aponta uma intenção política e comercial, não um contrato confirmado.

O ponto sensível para o Brasil é que a aeronave é brasileira, mas a guerra transformou o comprador final em tema diplomático. Kiev ouviu negativas em 2022, no governo Bolsonaro, e em 2023, no governo Lula, segundo a Folha.

Por que o Super Tucano interessa à Ucrânia?

O Super Tucano interessa à Ucrânia porque é apresentado pela Embraer como plataforma capaz de missões antidrone, justamente o tipo de ameaça que consome defesas de Kiev. Poroshenko citou os Shahed, drones usados pela Rússia em ataques contra infraestrutura ucraniana.

A Embraer informou em dezembro de 2025 que o A-29N entregue a Portugal oferece possibilidade de missões de luta antidrone. Em março de 2026, a empresa anunciou parceria com a Valkyrie Aero para adicionar capacidades C-UAS ao avião por meio do sistema Gunslinger.

Segundo a Embraer, a configuração exploraria o cockpit tandem, o tempo de permanência em voo e a agilidade do A-29. A proposta é usar uma camada aérea de custo menor que caças supersônicos para lidar com drones de menor velocidade.

Qual é o obstáculo brasileiro?

O obstáculo brasileiro é político e diplomático: Brasília rejeitou fornecer equipamento militar à Ucrânia em governos diferentes, segundo a Folha. Por isso, Poroshenko afirmou que negociaria com um país da Otan que já tenha contratos com o Brasil.

Na Otan europeia, a Folha informa que Portugal opera o modelo, com cinco das 12 unidades encomendadas em serviço. A Embraer também anunciou potencial linha de montagem em Portugal, país que opera o primeiro A-29N com configuração NATO.

A triangulação, se avançar, ainda teria de lidar com autorizações de exportação, contratos e posição do governo brasileiro. No acervo da TV Sim, o uso de aviões militares em interceptações aéreas no Brasil já apareceu em outro contexto.

O que acontece agora

O que acontece agora depende de três sinais: uma resposta formal da Embraer, a identificação do país da Otan que poderia intermediar a compra e a posição de Brasília diante de uma operação com destino final ucraniano.

A pressão europeia por defesa antidrone aumentou nas últimas semanas. A AP registrou que caças da Otan derrubaram um drone que entrou no espaço aéreo da Lituânia, enquanto aliados acusam a Rússia de incursões, sabotagens e vigilância em países que apoiam Kiev.