António Guterres, 77, chega aos meses finais como secretário-geral da ONU sem sucessor definido, véspera da Assembleia-Geral, nesta terça-feira (22), em Nova York. O mandato dele termina em 31 de dezembro, sem consenso do Conselho de Segurança sobre o próximo nome.

Português, ex-primeiro-ministro de Portugal e primeiro lusófono a chefiar a ONU, Guterres cumpriu dois mandatos, dez anos ao todo. Nesse período, a organização enfrentou a pandemia de covid-19, a guerra na Ucrânia, o conflito em Gaza e a guerra no Irã.

Guterres também lidou com a acelerada emergência climática e com os dois governos de Donald Trump, um dos principais críticos do multilateralismo que a ONU representa.

A gestão foi marcada por crise orçamentária grave, que forçou cortes na assistência humanitária em países com situação social calamitosa. A ajuda ao Sudão do Sul caiu 35% ante 2024, segundo dados citados por Richard Gowan, do Crisis Group.

A distribuída à Ucrânia recuou 30% e a do Haiti, 18%, no mesmo período. Gowan acompanha a atuação da ONU há mais de duas décadas.

"Talvez o maior legado de Guterres seja o fato de a ONU continuar em funcionamento", afirma Gowan. "Por motivos alheios à sua vontade, a ONU teve de reduzir a assistência humanitária e cortar operações de manutenção de paz", completa o analista.

Quem disputa suceder Guterres

Disputam a sucessão María Fernanda Espinosa (Equador), Rebeca Grynspan (Costa Rica) e Carolyn Rodrigues-Birkett (Guiana), depois que Michelle Bachelet desistiu da corrida após perder por 11 a 1 numa votação de sondagem no Conselho de Segurança.

Grynspan suspendeu a liderança da Unctad, agência de comércio e desenvolvimento da ONU, ao virar candidata. Ela foi a primeira mulher a comandar o órgão em 60 anos de história.

Rodrigues-Birkett, ex-chanceler da Guiana, liderou por margem pequena a segunda rodada da votação secreta. Há esforço amplo entre os países-membros para que a próxima liderança seja de uma mulher, o que nunca ocorreu entre os nove homens que já lideraram a ONU.

Por que o Brasil abre a última Assembleia dele

O Brasil abre a Assembleia-Geral da ONU com a primeira fala desde 1949, tradição criada porque outros países relutavam em falar primeiro, temendo parecer alinhados a EUA ou União Soviética na Guerra Fria.

O discurso brasileiro de terça marca a despedida de Guterres da função que ele exerce há uma década, com Lula na tribuna antes de Trump.

Diferentemente da maioria das delegações, que tratam de temas pontuais, o Brasil usa o espaço para uma leitura ampla da conjuntura internacional e a defesa de temas como o combate à fome. Nesta terça, o discurso de Lula mira Trump sem citar o nome.

O que acontece agora

A última Assembleia-Geral sob Guterres começa nesta terça (22) em Nova York, com chefes de Estado de todo o mundo. O Conselho de Segurança já fez a 3ª rodada da votação secreta de sondagem para medir o apoio às candidatas.

Ainda não há data marcada para o consenso final entre Estados Unidos, China, Rússia, França e Reino Unido. Guterres deixa o cargo em 31 de dezembro, e o novo secretário-geral precisa estar definido antes disso para garantir a transição.