Santa Catarina fechou 2025 com 45 doadores efetivos de órgãos por milhão de habitantes, mais do dobro da média nacional de 20,3, segundo a Assembleia Legislativa do estado. Nos últimos 21 anos, o estado liderou o ranking nacional de doação em 15 deles.

O indicador que mais chama atenção é a recusa das famílias: caiu de 70% em 2007 para 31% neste ano em Santa Catarina. No Brasil como um todo, ela ainda roda em 45%, segundo o Registro Brasileiro de Transplantes da ABTO.

Coordenador da Central Estadual de Transplantes de Santa Catarina desde 2005, o médico Joel de Andrade explica que os profissionais "identificam precocemente potenciais doadores", agem com empatia e apresentam a possibilidade de doação às famílias no momento certo.

A estrutura por trás do resultado é grande: são 73 hospitais doadores na rede estadual, mais de 300 profissionais de captação entre coordenadores, médicos e enfermeiros intensivistas, e 7 polos de transplante espalhados por Blumenau, Joinville, Chapecó, Itajaí, Criciúma, São José e Florianópolis.

Os fatores de sucesso citados pelo estado incluem trabalho de equipe 24 horas por dia, treinamento profissionalizado dos coordenadores hospitalares, adaptação do modelo espanhol de doação de órgãos, comunicação empática com as famílias e gestão centralizada das listas de espera.

A diferença entre convencer 7 em cada 10 famílias, como faz Santa Catarina, e convencer pouco mais da metade, como faz o resto do país, não está na lei nem no protocolo médico: está no treinamento de quem faz essa conversa difícil na hora certa.

O outro lado do país mostra o efeito dessa diferença. O Distrito Federal tem hoje 1.902 pessoas na fila por um transplante, e a escassez de doadores atinge com mais força o transplante em crianças em vários estados.

Nacionalmente, houve avanço: a taxa de doadores subiu de 19,2 para 20,3 por milhão entre 2024 e 2025. Entre setembro de 2025 e agosto de 2026, a Amib e o Ministério da Saúde capacitaram 2.534 profissionais para replicar a fórmula catarinense.

O ponto em aberto

O modelo de Santa Catarina está documentado e replicável no papel: treinamento de coordenadores, comunicação estruturada com famílias, gestão centralizada. A pergunta que fica é por que ele ainda não virou padrão nacional depois de tanto tempo provado.

A resposta parcial está na velocidade do esforço em curso: os 2.534 profissionais capacitados em um ano pela Amib e pelo Ministério da Saúde são uma fração dos mais de 300 que só Santa Catarina já mantém hoje, num único estado.