A Polícia Federal prendeu em flagrante um homem de 44 anos no Aeroporto do Galeão, no Rio, com 28 frascos de tirzepatida, medicamento emagrecedor, trazidos do Paraguai sem documentação. O caso ilustra um mercado que cresce mais rápido do que a fiscalização consegue barrar.

O passageiro, natural de São Gonçalo, desembarcava de um voo com conexão em Porto Alegre, vindo de Foz do Iguaçu, cidade que concentra boa parte do contrabando de canetas emagrecedoras na fronteira. Ele foi indiciado por importação ilegal de medicamento sem registro.

O motivo do apelo é o preço. No Paraguai, versões clandestinas de tirzepatida custam entre R$ 294 e R$ 770, enquanto o Mounjaro regulado sai por R$ 1.562,66 no Brasil, mais de cinco vezes mais caro na dose equivalente.

Um contrabando que já disparou 1.446%

Nossa reportagem já mostrou que o contrabando de canetas emagrecedoras entre Paraguai e Brasil disparou 1.446% em 2026. A Receita Federal apreendeu 115.647 unidades no ano, ante 7.479 em todo o 2025.

Foz do Iguaçu sozinha responde por 71.600 canetas apreendidas, quase metade do total nacional. Em valor, a apreensão do primeiro semestre chegou a R$ 108,9 milhões, alta de 63,6% sobre o mesmo período de 2025.

Um estudo liderado por pesquisadores da USP aponta que essa demanda passou a incluir gente sem indicação clínica para o tratamento, atraída pela promessa de emagrecimento rápido, superando a oferta regular nas farmácias.

A Anvisa já proibiu a caneta T36, versão paraguaia clandestina do Mounjaro, além das vendidas como T.G. e Lipoless, por não terem passado por avaliação sanitária no país.

Os riscos que a versão clandestina carrega

Segundo a fabricante americana Eli Lilly, dona da patente do Mounjaro, versões ilegais do produto já apresentaram contaminação bacteriana e níveis elevados de impurezas em análises da empresa.

A endocrinologista Paula Fábrega alerta que fracionar a dose por "contagem de cliques", prática comum entre usuários das versões clandestinas, é pouco confiável, porque a quantidade de cliques varia conforme a concentração de cada medicamento.

Já o médico Alexandre Hohl classifica esses produtos como de "baixo grau de confiabilidade" e defende que representam risco à saúde pública, já que a aplicação semanal não deveria ser fracionada em doses menores.

O alerta chega no mesmo dia em que a Anvisa também investiga uma doença rara que pode causar cegueira em usuários de canetas da mesma classe, incluindo o próprio Mounjaro. São 13 casos suspeitos de neuropatia óptica sob análise da agência.

O ponto em aberto

Cabe recurso à decisão que autuou o passageiro preso no Galeão, mas o caso dele é só um entre milhares. Ao menos 14 ações na Justiça Federal já pedem autorização para importar tirzepatida legalmente, com 5 liminares favoráveis já concedidas.

A pergunta que fica é se a fiscalização vai conseguir acompanhar uma demanda maior do que a oferta regulada consegue atender.