O jornalista Jon Lee Anderson disse à BBC News Brasil que a próxima etapa da política de Donald Trump para a América Latina pode ser ação militar direta dos Estados Unidos em diferentes países, em nome do combate ao narcotráfico. Ele vê risco à soberania.

Anderson é repórter da revista The New Yorker desde 1998 e autor de perfis sobre líderes latino-americanos. Segundo a entrevista reproduzida por G1 e UOL, ele vê o continente em limbo pela influência da Casa Branca sobre governos da região.

"A próxima coisa que veremos é ação militar americana direta em diferentes países, supostamente contra o narcotráfico. Tudo isso é preocupante em termos do respeito à soberania entre as nações", disse Anderson à BBC News Brasil.

O alerta não parte do zero. A AP informou no domingo (20) que militares dos EUA atacaram um barco suspeito de contrabando de drogas no Caribe e mataram quatro pessoas.

A campanha chegou a ao menos 231 mortos em 69 ataques.

Para o Brasil, o ponto sensível é que a agenda de soberania já entrou no centro da relação com Washington. A TV Sim mostrou que Lula levou soberania à ONU sob a sombra de Trump e da eleição.

O Planalto também segurou a Lei da Reciprocidade enquanto buscava acordo com os EUA. É nesse ambiente que a fala de Anderson ganha peso para o leitor brasileiro.

O que muda para a região?

O que muda para a região é que a pressão americana deixou de ser apenas diplomática e passou a combinar sanções, operações conjuntas e ataques militares. Segundo a CNN Brasil, os EUA intensificaram ações com Equador, Venezuela e México neste ano.

A fala de Anderson apareceu no mesmo dia em que o chanceler de Cuba, Bruno Rodriguez, acusou Washington de usar a luta antidrogas como pretexto para militarização. A EFE informou que Havana vê essa presença como instrumento de dominação regional.

O governo Trump apresenta a ofensiva como política de segurança. A Folha noticiou em 2 de setembro que autoridades americanas afirmaram que os EUA podem e vão atacar narcotraficantes onde for necessário.

Anderson citou Cuba e Venezuela como partes centrais desse tabuleiro. No caso venezuelano, a TV Sim mostrou que Delcy levou energia e dívida à mesa com os EUA.

O que os números mostram?

O que os números mostram é uma campanha prolongada, com letalidade alta e eficácia ainda disputada. A Folha informou que o Pentágono relatou ao Congresso queda de 20% no Caribe e 25% no Pacífico Oriental no movimento de barcos com drogas.

A mesma reportagem registrou que o Comando Sul, responsável militar dos EUA pela América Latina e pelo Caribe, não divulga métricas públicas de eficácia. Essa lacuna conecta a retórica antidrogas a uma operação já em curso.

O que acontece agora

O que acontece agora depende de como Washington transforma a campanha contra barcos em pressão sobre governos. Anderson disse que políticos da região passaram a medir o risco de ficar no lado errado de Trump.

Para o Brasil, a consequência imediata é diplomática. O governo Lula tenta preservar canais com os EUA sem abandonar o discurso de soberania, justamente o tema que Anderson aponta como vulnerável quando a ação militar vira ferramenta de política externa.