Um júri de São Paulo absolveu, nesta quinta-feira (30), dois policiais militares acusados de matar a tiros um jovem desarmado e já rendido na comunidade de Paraisópolis, na zona sul da capital paulista. Os jurados reconheceram que os cabos Renato Torquatto da Cruz e Robson Noguchi de Lima participaram da morte, mas decidiram absolvê-los. O juiz confirmou o veredicto e determinou a soltura dos dois, que estavam presos em presídio militar.
A vítima foi Igor Oliveira de Moraes Santos, de 24 anos, morto em 10 de julho de 2025 durante uma operação policial na comunidade. Ele foi atingido por três disparos — dois no tórax e um no pescoço.
O que mostram as câmeras corporais
O caso foi registrado pelas câmeras corporais dos próprios policiais. As imagens mostram Igor desarmado, com as mãos acima da cabeça, atrás de uma cama, antes de ser atingido. Em outro trecho, o jovem aparece no chão e responde "Não, senhor" à pergunta de um policial sobre se tinha passagem pela polícia. Nas gravações, policiais são ouvidos dizendo "as COP, as COP" — referência às câmeras operacionais portáteis — antes de novos disparos.
Para o Ministério Público, os policiais perseguiam suspeitos de tráfico que se esconderam em um quarto; ao serem encontrados atrás de uma cama, os suspeitos obedeceram à ordem de levantar as mãos, inclusive a vítima. Ainda assim, de acordo com a acusação, Torquatto atirou em Igor com as mãos erguidas e, em seguida, Noguchi disparou com uma espingarda. Um laudo pericial apontou Torquatto como autor dos disparos fatais, e testemunhas relataram que nenhuma arma ou droga foi encontrada no local.
A versão inicial da Polícia Militar era outra: a corporação informou que os policiais faziam patrulhamento quando receberam informação sobre indivíduos armados com fuzis, que teriam fugido para dentro de uma residência, e afirmou que armas, munições, drogas e documentos ligados ao tráfico foram apreendidos. Depois, a versão passou a ser a de busca por uma suspeita "casa-bomba", que nunca foi localizada.
Defesa, recurso e os outros dois réus
A defesa dos policiais sustentou no julgamento, iniciado em 28 de julho no Fórum Criminal da Barra Funda, que havia "provas insuficientes" para comprovar a culpa e que "um dos indivíduos fez menção de sacar uma arma", o que teria motivado os disparos. Os advogados afirmaram ainda que as imagens de câmera corporal "não demonstravam a realidade" dos fatos e pediram a absolvição por legítima defesa. Os dois cabos respondiam por homicídio qualificado com agravantes.
Os advogados da família de Igor recorreram da decisão, afirmando que o veredicto contraria as provas apresentadas. O objetivo é anular o julgamento e levar os dois policiais de volta ao Tribunal do Júri.
Outros dois policiais seguem respondendo pelo caso: os soldados Hugo Leal de Oliveira Reis e Victor Henrique de Jesus, acusados de participação no crime por prestarem "auxílio moral e material" aos que atiraram. A Justiça desmembrou a ação contra eles, que respondem em liberdade e ainda não têm data de julgamento marcada.














