O embaixador da Argentina em Brasília, Daniel Raimondi, deixou o Brasil neste domingo (9), depois de o Itamaraty comunicar à embaixada argentina o rebaixamento da relação bilateral a nível de encarregado de negócios. A medida é resposta a ataques do presidente Javier Milei a Lula e ao STF.

A representação diplomática argentina em Brasília passa a ser conduzida pela ministra María Emilia Cortés, chefe de chancelaria da embaixada. Do lado brasileiro, o embaixador Julio Bitelli segue em Buenos Aires por prazo indeterminado. O rebaixamento é recíproco.

A crise é considerada a mais severa entre os dois países desde a redemocratização.

O que motivou o rebaixamento

O chanceler brasileiro, Mauro Vieira, disse que o motivo foram "reiterados atos, insultos e agressões" de Milei ao Brasil, às instituições, ao Executivo e ao Judiciário.

"É preciso que cessem imediatamente as agressões para que possamos voltar ao caminho da normalidade na relação", disse Vieira.

A crise começou em 25 de julho, quando Milei, num evento em São Paulo que oficializou a candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência, chamou Lula de "ladrão", "corrupto" e "presidiário" e criticou o ministro do STF Alexandre de Moraes.

O que está em jogo no comércio

O comércio entre os dois países somou US$ 31,2 bilhões em 2025, o maior volume em 13 anos. O Brasil compra 13% de tudo que a Argentina exporta e concentra 69% das vendas argentinas ao Mercosul.

O setor automotivo é o mais exposto. Em 2025, a Argentina exportou 57% dos 490.876 veículos que fabricou, e 65% desse volume foi para o Brasil.

No primeiro semestre de 2026, já em meio à crise, as exportações brasileiras de automóveis para a Argentina caíram 28,2%, e as de autopeças, cerca de 29%. Até agora, porém, nenhuma medida comercial formal alterou o intercâmbio entre os dois países.

Do lado argentino, uma aliada de Milei saiu em defesa do presidente e cobrou o retorno do embaixador brasileiro a Buenos Aires. O governo argentino não reconhece, até agora, responsabilidade unilateral pela crise.

Até quando a crise deve durar

O governo brasileiro só sinaliza normalizar a relação quando Milei parar de atacar Lula e as instituições brasileiras. Milei, até aqui, dobrou a aposta a cada crítica recebida.

As exportações automotivas já caíram quase 30% no primeiro semestre. Falta saber se esse custo econômico muda o cálculo de algum dos dois lados.