Um mural de 1.600 metros quadrados em homenagem a Milton Nascimento foi finalizado nesta quinta-feira (24) numa esquina do centro de Belo Horizonte. A obra, assinada pelo artista Kaká Chazz, celebra os 84 anos do artista, carioca de nascimento, mineiro de coração.

A homenagem tem um quê de profecia cumprida. Na música "Clube da Esquina", de 1970, Milton canta: "De novo na esquina os homens estão". Mais de 50 anos depois, o verso se repete numa das muitas esquinas do centro de BH.

A obra ocupa a empena de um prédio na avenida Álvares Cabral, perto da rua Timbiras, e faz parte da 20ª edição da Fábrica de Graffiti, projeto que humaniza espaços urbanos com StreetArt desde 2019.

A obra retrata Milton em dois momentos. Acima, aparece o cantor mais velho, com o figurino da turnê de despedida dos palcos, em 2022; abaixo, o rosto do jovem compositor que se tornaria um dos nomes centrais da música brasileira.

Para Chazz, a obra é mais que um retrato.

Pintar o Milton não é simplesmente pintar um grande artista que admiro. É pintar uma pessoa que teve uma trajetória de muitas lutas, mas que se entregou verdadeiramente àquilo em que acreditava: à arte e ao povo.

O artista usou elementos do barroco mineiro, como arabescos, e tons do pôr do sol. Ao conjunto, somou sementes, marca de seu trabalho, remetendo ao sertão, à fé e à cultura popular.

As sementes carregam um segundo significado. "Neste mural, a semente também faz referência ao nome que Milton recebeu do povo indígena Guarani-Kaiowá, que o batizou como Semente da Terra", conta o artista.

Quem é o autor do mural

Kaká Chazz é natural de Três Pontas, no sul de Minas, cidade para onde Milton se mudou aos seis anos, no final da década de 1940. O artista disse ter sentido o peso de pintar "um artista gigante".

Chazz também assina outro mural em homenagem a Milton, em Três Pontas, finalizado em 2025. Sobre aquela obra, o filho do músico, Augusto Nascimento, disse: "Foi uma homenagem que ele aprovou e adorou".

O mural de Belo Horizonte chega junto aos 84 anos de Milton Nascimento. Ainda em produção, no fim de semana anterior à conclusão, Augusto Nascimento visitou a obra e a chamou de "linda homenagem ao meu pai".

Chazz também descreve a proximidade com a obra do cantor.

"Crescer nesse lugar e depois me tornar artista fez com que eu fosse entendendo, com o tempo, a dimensão do que o Milton representa", afirma o artista. "Acho que essa proximidade também influenciou a maneira como eu construo o meu próprio trabalho."