O Brasil se prepara para o que pode ser o El Niño mais forte já registrado. Boletins da NOAA e do Inmet, do Inpe, da ANA, do Cemaden e do SGB apontam 81% de chance de o fenômeno atingir a categoria mais intensa entre setembro e dezembro deste ano.
A anomalia de temperatura no Pacífico pode chegar a 3,6°C, aponta o site especializado Super El Niño. Se confirmada, superaria o recorde de 2,75°C do El Niño de 2015-2016, tornando 2026 o mais intenso desde que há registro do fenômeno.
Só houve quatro Super El Niños em 150 anos.
As ocorrências anteriores foram em 1877-78, 1982-83, 1997-98 e 2015-16. Pelos números atuais, 2026 pode se tornar o quinto Super El Niño da série.
Segundo o climatologista Zeke Hausfather, da Berkeley Earth, os cenários intermediários já superam todos os recordes anteriores.
Chuva de um lado, seca do outro
O padrão do fenômeno divide o país ao meio. Segundo o boletim conjunto do Inmet, do Inpe, da ANA, do Cemaden e do SGB, o Sul deve ter chuva acima da média entre setembro e dezembro.
Já o Centro-Oeste, o Norte e o Nordeste devem ter chuva abaixo do normal no mesmo período, com risco de estiagem prolongada e mais ondas de calor.
No campo, o efeito também é desigual. A chuva mais forte no Sul tende a favorecer a soja e o milho, elevando o potencial produtivo da região.
No Norte e no Nordeste, o fenômeno reduz as chuvas e pressiona os reservatórios de água, o que compromete a agricultura familiar.
A mesma seca que favorece um lado da lavoura pesa sobre a conta de luz de todo o país. A matriz elétrica brasileira é majoritariamente hidráulica, e o Sudeste e o Centro-Oeste tendem a concentrar calor e estiagem prolongada.
O resultado aparece em duas pontas. Mais gente liga o ar-condicionado enquanto os reservatórios das hidrelétricas perdem volume.
Sinais do tipo de instabilidade já apareceram nas últimas semanas. Nesta quinta (10), o Inmet emitiu alerta vermelho para 466 cidades do Sul e do Mato Grosso do Sul, com risco de granizo e ventos de 100 km/h.
O que aconteceu da última vez que foi assim
No El Niño de 1997-98, 247 municípios da Bahia foram afetados pela seca, principalmente na região semiárida. Cerca de 200 mil pessoas entraram no programa de emergência da Sudene, com custo estimado em US$ 62 milhões.
Enquanto o Nordeste enfrentava uma das secas mais devastadoras de sua história, o Sul do país teve chuva acima do normal no mesmo período. É o mesmo desenho que os meteorologistas preveem se repetir em 2026, agora em escala maior.
No campo, a expectativa já é de fartura em alguns cultivos. O Brasil projeta uma safra recorde de café para a temporada, justamente na região que tende a se beneficiar do padrão de chuva mais intensa.
O que ainda pode mudar na previsão
Os números de hoje são probabilidade, não certeza. A NOAA fala em 81% de chance de categoria "muito forte", não em fato consumado.
Os boletins oficiais são atualizados mês a mês, conforme o Pacífico esquenta ao longo da primavera e do verão no Hemisfério Sul.
O que já está definido é o padrão de efeito duplo. O mesmo fenômeno que pode fartar a safra do Sul é o que ameaça esvaziar reservatório e represar chuva no restante do país.


























