O Brasil bateu recorde de recuperações judiciais em 2025, com 977 processos abertos, e a tendência deve continuar em 2026. Casas Bahia e Marabraz são só os últimos nomes de uma lista que já soma 33 empresas neste ano, segundo o consultor Wagner de Moraes, da A&S Partners, especializada em reestruturação de empresas.

O recorde de 2025 envolveu 2.466 CNPJs, o maior número da série histórica. O ritmo de alta vem desacelerando ano a ano (36,2% em 2023, 26,4% em 2024, 12,9% em 2025), mas o total continua batendo recorde a cada ano, segundo a Serasa Experian.

Para Moraes, a origem do problema é uma mudança no próprio modelo de negócio do varejo. “Antes, se ganhava dinheiro no varejo, basicamente, na compra e venda de mercadorias”, disse. “Hoje, se ganha dinheiro com juros.”

Com a Selic em patamar elevado, o crédito que sustentava esse modelo ficou mais caro, e a inadimplência subiu. “A inadimplência está muito, muito elevada e não vejo muita chance de reversão”, afirmou o consultor.

Ele também aponta uma disputa por espaço no mercado de crédito. “Hoje o nosso governo é quem faz o maior volume de captações de dinheiro no mercado”, disse, referindo-se à dívida pública.

O consumidor sente o mesmo aperto: 82% das famílias brasileiras estão endividadas, segundo dados citados por Moraes. Em janeiro de 2026, 8,7 milhões de empresas estavam negativadas no país, com dívida média de R$ 23.138, de acordo com a Serasa Experian.

Por setor, a agropecuária respondeu por 30,1% das recuperações judiciais em 2025, seguida de perto por serviços (30%), comércio (21,7%) e indústria (18,2%).

O padrão já apareceu em outra rede da TV Sim: a dona do Tok&Stok e da Mobly também registrou prejuízo no mesmo trimestre, atribuído aos juros altos.

Entrar com o pedido não resolve o problema sozinho. “Fornecedores que antes vendiam para você, ou seja, mais a prazo, quando você entra num processo de RJ, isso não acontece mais”, alertou Moraes.

O que fica em aberto

Para o consultor, o pico ainda não chegou: “Eu arrisco a dizer que esse ano de 2026, principalmente o ano de 2027, vai alavancar muito o volume de RJs.”

A pergunta que fica é se os juros vão recuar a tempo de aliviar a próxima leva de empresas endividadas, ou se o recorde de 2025 será superado de novo.