Um estudo do MIT que mede a atividade cerebral de quem usa inteligência artificial para escrever voltou a circular nesta semana e reacendeu o debate sobre a chamada "dívida cognitiva". A pesquisa comparou 54 pessoas divididas entre ChatGPT, busca no Google e só o próprio raciocínio, e achou diferenças mensuráveis no cérebro.
O experimento dividiu os participantes em três grupos ao longo de três sessões: um escreveu redações usando o ChatGPT, outro usando busca convencional no Google, e o terceiro contando só com o próprio raciocínio.
Numa quarta sessão extra, só 18 dos 54 completaram a etapa.
Segundo a neurologista Juliana Khouri, quanto maior a ajuda externa, menor a ativação cerebral registrada. O grupo que usou o ChatGPT apresentou o menor nível de atividade entre os três.
Para o neurocirurgião Hugo Dória, quem usou inteligência artificial em tarefas cognitivas complexas teve menor ativação em áreas ligadas a memória, atenção e pensamento crítico. Ele faz uma ressalva: o achado indica um possível processo de redução do esforço cognitivo, não dano cerebral.
O efeito persistiu. Numa sessão final, os voluntários que tinham usado IA voltaram a escrever sem nenhuma ferramenta, e a conectividade cerebral deles continuou mais baixa, mesmo com a IA fora de cena.
Os limites do estudo
A amostra é pequena: 54 pessoas, das quais só um terço passou pelo grupo que usou IA. Especialistas lembram que a maior parte dos artigos publicados sobre o tema ainda é teórica, e que os resultados seguem preliminares.
Outra ressalva importante: o estudo do MIT "deu início a uma onda de conclusões catastróficas sobre a dívida cognitiva", sem definir que tipo de uso é prejudicial e que tipo pode até ajudar.
"Ainda estamos longe de saber como a IA afeta as capacidades mentais a longo prazo", resumem os críticos do estudo.
Khouri e Dória concordam num ponto: o problema não é a IA em si, mas a delegação passiva do pensamento, batizada de "cognitive offloading". É esse hábito, adotado sem critério, que pode prejudicar memória, atenção e capacidade de síntese.
O alerta vale sobretudo para quem ainda está aprendendo a escrever ou a raciocinar sobre um tema novo, caso de estudantes e profissionais no início de carreira.
O que ainda falta responder
Falta o desenho de estudo que separe o uso ocasional do uso diário, e o iniciante do usuário treinado. É essa lacuna que a crítica ao estudo do MIT aponta.
Até lá, a resposta mais honesta é que o efeito da IA no cérebro de quem escreve depende de como ela é usada.

























