O presidente chinês Xi Jinping não discursa nesta sexta-feira (25) na Assembleia Geral da ONU, no quarto dia do encontro em Nova York. A tarefa ficou com o vice-presidente Han Zheng, enquanto Xi se reúne com Donald Trump em Washington.

Xi e sua comitiva desembarcaram na capital americana na quarta-feira (23) para o encontro bilateral. Trump, por sua vez, deixou Nova York logo após discursar na abertura da Assembleia e cumprir compromissos bilaterais a portas fechadas com outros chefes de Estado.

Para Maurício Santoro, professor de relações internacionais da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), a recepção que Trump deu a Xi fugiu ao padrão reservado a outros líderes.

Ele foi recebido como se fosse o papa. Trump foi recebê-lo na porta do avião e estendeu o tapete vermelho. Isso só reforça a admiração que Trump sente por líderes fortes, muitas vezes autoritários

Afirmou Santoro. Segundo o professor, porém, o prestígio não é recíproco: Xi discursou no plenário da ONU uma única vez desde que assumiu a Presidência, em 2013, na edição de 2015.

Onde Xi Jinping prefere discursar

A ausência recorrente na ONU não reflete falta de atividade diplomática. Ele discursou, só nos últimos meses, na Cúpula dos BRICS em Nova Délhi, na reunião de chefes de Estado da Organização para Cooperação de Xangai e na Conferência Mundial de Inteligência Artificial em Xangai.

Para Santoro, isso mostra a importância relativa que a China dá à ONU: "ele dá preferência para espaços onde há mais convergência ideológica, ou onde a China tem mais poder de influência, como os espaços que eles mesmos criaram".

Oficialmente, o Ministério das Relações Exteriores da China informou que Han Zheng participa do debate geral da Assembleia entre 24 e 26 de setembro para defender o que o governo chinês chama de multilateralismo verdadeiro e a reforma das estruturas de governança global.

O que isso muda para o Brasil

A prioridade de Xi pelo encontro com Trump tem efeitos que já chegam ao Brasil: a soja brasileira depende diretamente do aperto de mão entre os dois, e a visita à Casa Branca já vinha sendo acompanhada de perto pelo Itamaraty.

O Brasil, aliás, é quem tradicionalmente abre os trabalhos da Assembleia Geral da ONU: o país discursa em primeiro lugar desde 1949, por acordo informal entre os países-membros.

Fica em aberto se o padrão identificado por Santoro vai se repetir nos próximos anos, com uma ONU cada vez mais deixada a representantes de segundo escalão, enquanto os chefes de Estado concentram a agenda pessoal em fóruns onde têm mais controle sobre o resultado.