A Anistia Internacional pediu nesta quinta-feira (24) a abolição do ICE, a polícia de imigração dos Estados Unidos, depois de um relatório documentar execuções extrajudiciais, detenções arbitrárias e condições desumanas em operações contra imigrantes em quatro cidades americanas, com apoio de outras agências federais.

O relatório reúne mais de 150 depoimentos colhidos entre março e junho em Chicago, Nova Orleans, Minneapolis e Washington, cidades onde o ICE concentrou operações. É a primeira vez que a Anistia Internacional recomenda o fim de uma agência do governo dos Estados Unidos.

A diretora-executiva da Anistia Internacional nos Estados Unidos, Nadia Daar, disse que o ICE está fundamentalmente quebrado e não pode ser consertado.

Que agentes federais encapuzados e armados ataquem pessoas nas ruas com total impunidade não torna nossas comunidades mais seguras: coloca todos em perigo.

A publicação ocorre dias depois de o venezuelano Wilber Garces Perez ser baleado por um agente do ICE em Austin, no Texas. Em janeiro, os americanos Renee Good e Alex Pretti foram mortos a tiros por agentes federais em Minneapolis.

Segundo o relatório, o ICE cometeu discriminação racial em detenções, prendeu gente sem identificação adequada ou advogado e manteve pessoas em condições desumanas numa instalação federal. O documento cita sete incidentes de uso de força potencialmente ilegal, incluindo três possíveis execuções extrajudiciais.

Não são, segundo a Anistia Internacional, incidentes isolados, mas um padrão recorrente nas operações do ICE.

Procurado pela imprensa americana, o Departamento de Segurança Interna dos Estados Unidos (DHS) não comentou diretamente os achados do relatório. Um porta-voz respondeu citando uma lista de pessoas detidas pelo ICE em Chicago que, segundo a agência, têm antecedentes criminais.

O caso de uma brasileira ilustra o tipo de situação que o relatório denuncia. Iara do Carmo Santana foi detida pelo ICE em Massachusetts depois de sofrer um aborto espontâneo e uma crise de saúde mental, como já mostrou a TV Sim Brasil.

O pedido chega em meio a uma ofensiva mais ampla do governo Trump contra a imigração, que já afetou brasileiros: em agosto, os Estados Unidos suspenderam o agendamento de vistos de imigrante, medida que atingiu diretamente o Brasil.

A tensão migratória entre os dois países também passou pelos vistos diplomáticos: os EUA chegaram a segurar vistos de agentes da Polícia Federal em meio à crise com o Brasil.

O que acontece agora

Iara do Carmo Santana segue respondendo ao processo em liberdade, sem data de deportação marcada. O governo Trump não anunciou mudança no ICE após o pedido da Anistia Internacional, e a agência segue operando normalmente nas quatro cidades citadas no relatório.