O Brasil chegou a 66% de crianças alfabetizadas na idade certa em 2025, dez pontos acima dos 56% de 2023, segundo o MEC. Mas os planos de Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) ignoram medidas técnicas apontadas como prioritárias por especialistas.

O avanço, medido entre o 1º e o 2º ano do ensino fundamental, superou a meta de 64% prevista para 2025. O país agora mira a meta seguinte: alfabetizar 80% das crianças até os 7 anos até 2030.

O salto de dez pontos em dois anos, porém, não resolve o problema estrutural.

A reportagem consultou seis autoridades em educação sobre os gargalos que o próximo presidente da República vai precisar enfrentar. A resposta unânime foi a mesma: reduzir o atraso no letramento. O problema é mais grave nas redes públicas de ensino.

"Ele lê certo, mas não escreve direito, troca muitas letras", conta a mãe de um aluno do 4º ano de uma escola pública em São Paulo, a ajudante-geral Ellem Priscila Gomes da Silva, 33.

Segundo as diretrizes do MEC e da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), o menino deveria dominar a escrita há pelo menos dois anos.

O que os planos de Lula e Flávio deixam de fora?

Faltam aos dois principais planos de governo medidas técnicas que os especialistas consideram prioritárias. Lula não detalha como nomear diretores de escola por critérios técnicos, nem como reduzir a formação de professores pelo ensino a distância (EAD).

Flávio Bolsonaro propõe ampliar as escolas cívico-militares e reforçar o papel das famílias na formação de valores. Segundo a Folha, as propostas não têm respaldo técnico e desviam o foco de práticas pedagógicas reconhecidas.

Os especialistas apontam cinco prioridades: atenção à primeira infância, da gestação aos 6 anos, reforço escolar nos últimos anos do fundamental e ampliação da escola em tempo integral. Completam a lista a formação prática dos professores e critérios técnicos para cargos de gestão escolar.

Quanto o Brasil investe em educação?

O Brasil investe mais que há uma década, mas segue distante da média dos países ricos. O gasto médio por aluno subiu de R$ 8,3 mil, em 2013, para R$ 12,5 mil em 2023, segundo o Anuário Brasileiro da Educação Básica.

Em 2013, quase metade dos municípios (45,9%) gastava até R$ 8 mil por aluno. Em 2023, essa fatia caiu para 1,7%.

Ainda assim, o investimento médio brasileiro por aluno, de US$ 3.668, fica perto do da Argentina. É menos de um terço da média da OCDE, de US$ 11.914.

É esse descompasso entre mais dinheiro e resultado ainda baixo que os especialistas cobram dos dois principais candidatos ao Planalto. Segundo Naercio Menezes Filho, do Insper e da USP, o Brasil expande o investimento em educação há duas décadas, mas o desempenho segue baixo.

Parte do salto recente no financiamento vem da reformulação do Fundeb, cujo repasse complementar da União passou de 10% em 2020 para 23% em 2026. Lula e Flávio Bolsonaro devem detalhar propostas de governo nos próximos debates presidenciais antes do 1º turno, em outubro.