Campos do Jordão, na Serra da Mantiqueira, estima receber 6 milhões de visitantes neste ano — 2,2 milhões só na temporada de inverno. Fundada em 1874 por um português, a cidade mais alta do país deve boa parte da hotelaria e gastronomia a imigrantes alemães e a uma arquitetura eclética que a batizou de "Suíça brasileira".
A cidade foi fundada pelo português Matheus da Costa Pinto, que comprou a terra para uma fazenda de gado. A ocupação ganhou ritmo na década de 1920, quando sanatórios passaram a atrair pacientes com tuberculose — na época sem tratamento eficaz, o clima frio e o ar da serra eram considerados aliados na recuperação. Segundo o historiador Edmundo Rocha Campos, o turismo começou justamente com as visitas de parentes e amigos dos internados, encantados com a paisagem.
A Estrada de Ferro Campos do Jordão, inaugurada em 1914, foi liderada pelo português Sebastião de Oliveira Damas, que trouxe trabalhadores de Castelo de Paiva, em Portugal. Décadas depois, em 1939, imigrantes alemães chegaram à cidade e ajudaram a consolidar a hotelaria e a gastronomia local, deixando receitas como o apfelstrudel. A partir dos anos 1960, operários nordestinos, muitos vindos da Bahia, chegaram para trabalhar na construção de hotéis e casas de temporada, ampliando a diversidade cultural do município.
A mistura de influências também aparece na arquitetura. "O que se verificou ao longo de mais um século, e que perdura até hoje, foi uma verdadeira mistura de padrões, quase sempre trazidos de fora pela forte influência da migração estrangeira no pós-Segunda Guerra Mundial", explica Agnes Yuri Uehara Bezerra, professora de Arquitetura e Urbanismo. Ela cita como exemplos os chalés de estilo suíço, como o Hotel Toriba, e o Palácio Boa Vista, projetado por um arquiteto polonês.
Descendentes das famílias que chegaram à cidade seguem presentes. O empresário Nelson Gonçalves, cuja família veio de Portugal na época dos sanatórios, mantém um restaurante com pratos como bacalhau, alheira e borrego. "Durante muitos anos, a comunidade se organizava para ajudar famílias portuguesas da cidade. Era uma colônia presente", conta. Já Cícero Roberto Rodrigues da Silva, presidente da Associação dos Nordestinos e dono de uma rádio local, chegou da Paraíba nos anos 1990 para trabalhar como zelador, seguindo o pai. "Muita gente veio de fora para trabalhar e construir a vida aqui. Tenho muita gratidão por Campos do Jordão, porque foi a cidade que acolheu a minha família", diz.












