O presidente Luiz Inácio Lula da Silva revelou no domingo (16), durante o lançamento oficial da campanha à reeleição, que fez radioterapia na cabeça para tratar um câncer de pele. A fala aconteceu no Estádio 1º de Maio, em São Bernardo do Campo (SP), diante de uma multidão que o PT esperava em 20 mil pessoas.

"Eu tô de chapéu primeiro porque eu gosto de chapéu, mas hoje é porque eu fiz radioterapia na cabeça pra cuidar de um câncer de pele e eu não posso tomar sol na cabeça", disse Lula, aos 80 anos. Em seguida, ele retirou o acessório diante do público.

"Eu quero dizer pra vocês que eu vou ousar a minha saúde e vou tirar o chapéu pra todos vocês", completou o presidente, no palco montado no antigo Estádio Vila Euclides.

O que motivou o tratamento

Uma lesão retirada do couro cabeludo de Lula em abril foi identificada como carcinoma basocelular, o tipo mais comum de câncer de pele e com alta taxa de cura. O tratamento teve 14 sessões de radioterapia, segundo o Correio Braziliense.

Segundo o oncologista Márcio Almeida, ao Correio Braziliense, a radioterapia depois da remoção cirúrgica não indica necessariamente um quadro mais grave. "Dependendo do tipo histológico, da extensão da lesão e achados cirúrgicos, a radioterapia adjuvante ou preventiva pode ser uma conduta absolutamente habitual em tumores cutâneos do couro cabeludo", afirmou o médico.

Para ele, o objetivo é reduzir o risco de doença residual microscópica, sobretudo em casos de maior risco.

A dermatologista Cristina Abdala reforça que esse tipo de tumor "não espalha para nenhum lugar", ao contrário de outros cânceres de pele mais agressivos.

Por que Lula tornou o tratamento público

Analistas ouvidos pela Gazeta do Povo veem no gesto uma estratégia eleitoral. Para o cientista político Elias Tavares, "a questão da idade estará presente no debate eleitoral", e demonstrar disposição para trabalhar durante o tratamento ajuda a transmitir resiliência e comprometimento.

Já a analista Yolanda Tolentino fala em "tentativa deliberada, e cada vez mais sofisticada, de transformar a idade e a trajetória de superação de Lula em ativos políticos".

O recurso não é inédito na política brasileira, lembra a Gazeta do Povo. Bruno Covas tratou câncer enquanto disputava a reeleição à prefeitura de São Paulo, e Fuad Noman foi reeleito em Belo Horizonte em meio a tratamento médico. Os dois morreram depois, vítimas da doença.

Jair Bolsonaro também converteu um momento de saúde, a facada de 2018, em conexão emocional com eleitores. O mesmo levantamento cita Joe Biden. O americano enfrentou pressão semelhante por causa da idade na campanha de 2024, também aos 80 anos.

O ponto em aberto: o acesso à radioterapia no país

Lula fez as 14 sessões em poucas semanas, com acompanhamento médico direto. No Brasil, entre 70 mil e 100 mil pessoas deixam de receber radioterapia todos os anos, segundo dado citado pela Gazeta do Povo.

Quantas dessas pessoas teriam o mesmo desfecho do presidente, com acesso ao tratamento na mesma velocidade?