A pesquisadora etíope Timnit Gebru, fundadora do centro de estudos DAIR, venceu nesta quarta-feira (30) o prêmio Right Livelihood, o chamado Nobel alternativo. O júri a reconheceu por questionar a concentração de poder na inteligência artificial e defender tecnologia baseada em justiça.

Gebru ficou conhecida em 2020, quando integrava a equipe de ética em inteligência artificial do Google.

Ela foi uma das autoras de um estudo sobre riscos de tendências racistas e sexistas em modelos de linguagem, batizado "On the Dangers of Stochastic Parrots" ("Sobre os perigos dos papagaios estocásticos").

O Google pediu que ela se retratasse dos resultados ou retirasse o nome do estudo. Gebru recusou, e a empresa a demitiu, segundo o júri do prêmio.

Depois de sair do Google, ela fundou o DAIR (Distributed AI Research Institute), centro de pesquisa dedicado a expor os preconceitos que sistemas de IA provocam em pessoas vítimas de discriminação e exclusão.

Em 2017, três anos antes do episódio no Google, Gebru já havia fundado a Black in AI, organização para aumentar a presença e a visibilidade de pessoas negras na área de inteligência artificial.

Quem mais foi premiado pelo Right Livelihood este ano?

Além de Gebru, o Right Livelihood premiou a advogada paquistanesa Jalila Haider, por sua luta contra perseguições étnicas, estatais e patriarcais, e a Georgian Young Lawyers Association, por contribuir para construir e preservar a democracia da Geórgia.

Também foi reconhecido o movimento ecofeminista Rural Women's Assembly, que reúne mais de 178 mil pequenas agricultoras de 11 países do sul da África. O júri elogiou a mobilização do grupo pelo acesso à terra e às sementes.

O prêmio nasceu de uma rejeição: foi criado em 1980 pelo alemão-sueco Jakob von Uexküll, depois que a Fundação Nobel recusou sua proposta de criar categorias para meio ambiente e desenvolvimento.

O reconhecimento a Gebru chega em meio a um debate crescente sobre os efeitos da inteligência artificial no mercado de trabalho. Uma executiva do setor afirmou recentemente que a tecnologia pode eliminar até 90 milhões de empregos nos próximos anos.

O ceticismo não vem só de pesquisadores independentes. O banco Goldman Sachs alertou que o retorno financeiro da IA pode demorar anos para aparecer, muito depois do investimento bilionário do setor.

Outras instituições também questionam os rumos da tecnologia: o Vaticano fechou parceria com a empresa Anthropic para propor limites éticos ao desenvolvimento da IA.