Garry Kasparov, ex-campeão mundial de xadrez e opositor de Vladimir Putin, afirmou que os EUA e a Lituânia o alertaram sobre risco à vida. O aviso veio após uma suposta conspiração russa para matar opositores do Kremlin fora da Rússia.

Autoridades americanas indiciaram cinco pessoas em setembro, acusadas de conspirar para assassinar dois opositores do Kremlin mediante pagamento, um nos Estados Unidos e outro na Lituânia.

Entre os cinco indiciados estão o coronel russo aposentado Yuri Khrameev, seu filho Kirill, oficial do FSB, e três recrutas pagos, dois cubanos e um venezuelano.

Um dos recrutas nos EUA recebeu oferta de US$ 40 mil para matar um alvo na região de Washington. No ano anterior, outro recebeu US$ 25 mil pela mesma tarefa na Lituânia.

"Fomos, no entanto, alertados pelos serviços de segurança da Lituânia e dos EUA de que nossas vidas estavam em perigo e que deveríamos tomar precauções", escreveu Kasparov em um post no Substack.

"Mas não vou parar e não vou me esconder... Continuarei a fazer tudo o que puder para mobilizar o mundo livre contra a ditadura assassina de Putin", completou Kasparov, que foi incluído pela Rússia em suas listas de "agentes estrangeiros" e "terroristas e extremistas".

Reportagens não confirmadas também apontam como possíveis alvos Ilya Ponomaryov, dissidente que mora na Ucrânia e viaja regularmente aos EUA, e Ivan Tyutrin, ativista da oposição que vive na Lituânia.

O Kremlin disse não ver motivo para comentar as acusações dos EUA, alegando falta de evidências confiáveis. A Rússia já havia negado anteriormente conduzir esse tipo de conspiração em solo estrangeiro.

Por que a tática da Rússia mudou?

A resposta está em quem a Rússia recrutou. Depois da expulsão em massa de diplomatas e espiões russos pelo Ocidente, após o envenenamento de Skripal em 2018, o Kremlin passou a recorrer a criminosos comuns no lugar de agentes profissionais.

A diferença salta aos olhos quando se compara quem executou cada ataque. Agentes do FSB e do GRU em Londres e Salisbury; recrutas pagos em dinheiro vivo, duas décadas depois.

Não é a primeira vez que o Kremlin usa de força contra quem o contesta. Em setembro, a Rússia também recorreu a acusações de drogas para enquadrar criminalmente opositores internos.

O caso soma-se a uma Rússia cada vez mais assertiva fora de suas fronteiras. Analistas já apontavam, após a vitória do partido de Putin nas eleições legislativas de setembro, que o resultado russo pesa além do próprio país.

A Lituânia, citada no alerta a Kasparov, já vinha sendo apontada como um dos pontos de maior tensão. Um dos possíveis alvos mora lá justamente onde a Rússia testa os limites da Otan no Báltico.

O que fica sem resposta

Os cinco indiciados nos Estados Unidos seguem foragidos, segundo o Departamento de Justiça americano. A rede, segundo os próprios promotores, continua em operação.

Fica a pergunta de até que ponto indiciar quem está fora do alcance da Justiça americana funciona como barreira real, ou se serve sobretudo para tornar pública uma tática que a Rússia nega.