Um cientista político brasileiro e uma brasilianista americana descrevem a disputa pela Presidência como marcada por desânimo. Lula e Flávio Bolsonaro, os nomes mais citados nas pesquisas, têm índices de rejeição próximos de 50% cada, segundo a professora Wendy Hunter, da Universidade do Texas.
Vejo os dois lados apagados. Tanto Lula quanto Flávio geram pouco entusiasmo, disse Wendy Hunter, professora da Universidade do Texas e autora de um livro sobre a trajetória do PT, em entrevista à Folha publicada nesta quinta (1º).
Por que a disputa é mais difícil para o PT do que em 2022?
Lula venceu Jair Bolsonaro em 2022 por apenas 1,8 ponto percentual. Segundo Hunter, a disputa de 2026 tende a ser mais difícil para o PT: o desempenho econômico não tem sido ruim, mas pesa a preocupação das pessoas com o custo de vida.
Também mudou o perfil do eleitorado: antes havia uma parcela sólida interessada no regime CLT e em sindicatos. Hoje, segundo a professora, muitos querem ser empreendedores.
O antipetismo é formado por um perfil heterogêneo de eleitores e é reforçado por um discurso sobre trabalho e mérito, diz Hunter. A rejeição não se concentra apenas entre eleitores brancos, ricos e moradores do Sul e Sudeste, afirma a professora.
Numa entrevista anterior, à BBC News Brasil em agosto, Hunter já apontava um "déficit de entusiasmo" ligado a uma mudança geracional no PT: o partido deixou de ser visto como jovem e cheio de energia pelas novas gerações.
Na mesma entrevista, disse que Flávio tem 25% do eleitorado garantidos, mas sem empolgação.
A crise no STF pesa mais para qual lado?
Para Hunter, a crise no Supremo Tribunal Federal afeta mais a avaliação de Lula do que a de Flávio. Ela não vê ligação direta do petista com o caso, mas diz que, na cabeça das pessoas, ele está muito associado ao ministro Alexandre de Moraes.
Outro pesquisador já havia chamado atenção para esse desgaste: a origem da crise no STF é anterior ao caso Moraes, segundo professor da FGV ouvido pela reportagem em setembro.
Visão parecida tem o cientista político Paulo Niccoli Ramirez, da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP). Em março, ele chamou Flávio Bolsonaro de "o candidato em silêncio".
Segundo Ramirez, parte dos votos em Flávio vem de eleitores moderados que veem Lula como "radical", percepção que tende a mudar à medida que a campanha avança.
Entusiasmo baixo dos dois lados significa que boa parte do voto tende a ser mais contra um nome do que a favor do outro.
Levantamentos publicados nas últimas semanas mostram o empate técnico entre os dois no 2º turno e índices de rejeição elevados para os dois lados.
O ponto em aberto
O desânimo descrito pelos dois pesquisadores levanta uma pergunta além do resultado de domingo. Se o eleitorado chega à urna mais pelo voto obrigatório do que pela adesão a um projeto, que tipo de mandato nasce dessa eleição, qualquer que seja o nome vencedor?






























