O Brasil precisa de um ajuste fiscal para crescer de forma sustentável e destravar investimentos, disse o CEO do banco Inter, Alexandre Riccio, no Inter Invest Summit, em Belo Horizonte. Para ele, o caminho passa por eliminar os gargalos que afastam capital do país.
"A gente precisa de um ajuste fiscal. A gente precisa mesmo de focar na eliminação desses gargalos para que o Brasil tenha um crescimento no longo prazo que permita uma expansão sem inflação", disse o executivo.
Segundo Riccio, o resultado prático de um ajuste fiscal bem-sucedido seria uma taxa de juros estrutural mais baixa, capaz de romper com o histórico recente de juros altos no país.
O cenário fiscal que ele descreve como obstáculo tem números concretos. O mercado projeta déficit primário de R$ 59,1 bilhões em 2026 para o governo central, segundo o boletim Prisma Fiscal de agosto, e vê a dívida bruta encerrando o ano em 83% do PIB.
O que muda para quem investe
Um ajuste fiscal reduz o risco que o mercado cobra do governo para emprestar dinheiro. Isso tende a baixar a taxa de juros de referência e empurrar o investidor para além da renda fixa.
Riccio descreve essa mudança de comportamento como inevitável no médio prazo. "Eu saio de um caminho onde investimento em renda fixa resolve tudo para um caminho onde a pessoa vai ter que fazer uma diversificação quase que obrigatória em renda variável, em fundos multimercados", afirmou.
Hoje, esse cenário de diversificação ainda é remoto, na própria avaliação do executivo, que aponta a educação financeira como peça central para o brasileiro comum lidar com mais risco no bolso.
Por que o mercado ainda desconfia
A distância entre o discurso e o resultado fiscal ajuda a explicar a cautela do mercado. Com a Selic em 13,75% ao ano, o Brasil segue entre os países com juro real mais alto do mundo.
Em 2025, o setor público consolidado fechou com déficit primário de 0,43% do PIB, mas o déficit nominal, que inclui os juros da dívida, chegou a 8,34% do PIB.
A meta fiscal de 2026 já divide governo e mercado sobre o tamanho real do ajuste necessário.
O governo, por sua vez, argumenta que cumpre as regras do arcabouço fiscal mesmo operando no vermelho. Entenda por que a meta é considerada cumprida mesmo com o resultado negativo.
Do lado político, a crítica aos juros altos também vem da oposição. Em junho, o governador Ronaldo Caiado acusou o governo federal de esconder a real situação fiscal do país por trás dos juros elevados.
Sobre o efeito da corrida eleitoral na economia, Riccio evita prever um vencedor e foca no que vier depois da posse.
"O fator determinante vai ser quais são os planos, o que a gente vai efetivamente fazer ao longo do tempo para poder encontrar um caminho de crescimento bastante sustentável", disse.
O ponto em aberto
O diagnóstico de que falta ajuste fiscal é hoje um consenso entre mercado, banqueiros e parte da oposição. O que ainda não existe é um plano fechado e votado, de qualquer candidato, sobre onde cortar ou como equilibrar as contas a partir de janeiro.





























