A primeira etapa de processos seletivos no Brasil passou a ser feita, cada vez mais, por inteligência artificial. Chatbots de triagem e entrevistas em vídeo analisadas por algoritmo já filtram candidatos antes de qualquer contato humano, segundo especialistas ouvidos pelo Metrópoles.

Segundo Fábio Salomon, headhunter e apresentador do podcast Café com Sal, o formato mais comum hoje é a entrevista assíncrona.

O candidato grava respostas em vídeo para perguntas pré-definidas, e a IA transcreve, organiza e pontua o material contra critérios definidos pelo RH.

Salomon afirma que chatbots de triagem já assumiram checagens objetivas, como pretensão salarial e domínio de idioma, tarefas que antes cabiam a um recrutador humano.

"A IA faz uma primeira análise em escala e organiza as informações. O gestor recebe inteligência para tomar uma decisão mais qualificada. Deixamos de ter o recrutador como mediador entre candidato e área contratante", afirma Dalvelyn Menezes Kalachi, sócia do escritório Ernesto Borges Advogados.

A responsabilidade pela decisão, porém, não sai da empresa. O algoritmo não tem CNPJ, e quem responde pelos critérios de contratação, promoção e desligamento é o empregador, mesmo quando a tecnologia é terceirizada.

A Lei Geral de Proteção de Dados garante ao candidato o direito de pedir revisão de decisões automatizadas que afetem seus interesses, incluindo informações sobre os critérios usados, segundo o artigo 20 da lei.

O artigo 52 da LGPD prevê multa de até 2% do faturamento da empresa, limitada a R$ 50 milhões por infração.

O que muda com a nova lei de IA

O Projeto de Lei 2.338/2023 classifica sistemas de IA por grau de risco. Recrutamento, promoção, distribuição de tarefas, avaliação de desempenho e desligamento por algoritmo entram no grupo de alto risco.

O texto foi aprovado pelo Senado em dezembro de 2024 e está em análise na Câmara dos Deputados. A proposta equipara a regulação brasileira a padrões já em vigor na União Europeia para sistemas de IA usados em decisões de emprego.

O caso mais citado sobre viés no recrutamento por IA é o da Amazon. A empresa descontinuou, em 2015, um sistema interno de seleção de currículos.

O algoritmo penalizava currículos com a palavra "feminino" (como em "capitã do time de xadrez feminino"), por ter sido treinado majoritariamente com currículos de candidatos homens.

O tema já apareceu em outra reportagem sobre o uso de IA em todas as etapas do RH, da contratação ao desligamento.

A TV Sim Brasil já mostrou como a IA impacta o mercado de trabalho em outras funções, além do RH.

A discussão sobre regras para a tecnologia também está no radar do governo. O presidente Lula já pediu regulação "dura" para a IA.