A imprensa estatal chinesa dá amplo destaque à eleição presidencial brasileira deste domingo (4), com cobertura favorável a Lula (PT) e cautela com Flávio Bolsonaro (PL). Kerry Allen, do BBC Monitoring, diz que, "se há um candidato preferido da China, é Lula".

A cautela tem motivo econômico. A China comprou US$ 100 bilhões em produtos brasileiros em 2025, 29% de toda a exportação do país, segundo a revista Foreign Policy. Da soja embarcada, 79% vai para lá; no minério de ferro, a fatia chega a 67%.

No petróleo, a fatia é de 45%.

O portal chinês NetEase resume a lógica por trás dos números: independentemente de quem vencer a eleição, os navios de carga brasileiros vão continuar seguindo para a China.

Kerry Allen, do BBC Monitoring — departamento que monitora mais de 3 mil veículos em mais de 150 países —, é quem analisa essa cobertura para a BBC News Brasil.

Segundo Allen, a cobertura chinesa descreve Lula como "o político de esquerda mais influente do Brasil", com apoio popular, experiência de governo e imagem internacional positiva.

Delegações do Brasil e da China reunidas em encontro bilateral em Brasília
Delegações brasileira e chinesa durante reunião bilateral em Brasília (foto de arquivo) Foto: Vice-Presidência da República/wikimedia via Openverse (BY)

O governo brasileiro cultiva a relação em paralelo à campanha. Em setembro, Celso Amorim entregou a Xi Jinping uma carta de Lula que criticava a ingerência dos Estados Unidos.

Os dois países já discutem acelerar um acordo entre o Mercosul e a China, depois do tarifaço imposto pelos americanos.

Flávio Bolsonaro faz o discurso oposto. Ele critica o que chama de "submissão à China" e já sugeriu a saída do Brasil do grupo BRICS.

Ele também planeja reformar o Itamaraty nos moldes do secretário de Estado americano Marco Rubio, mas seu próprio programa de governo reconhece os riscos de romper com o maior comprador das exportações brasileiras.

Os Estados Unidos também disputam espaço. Flávio foi recebido por Donald Trump na Casa Branca em 26 de maio, num encontro de 1h40.

No encontro, ele pediu que o governo americano classifique o Comando Vermelho e o Primeiro Comando da Capital como organizações terroristas. Terras raras também entraram na pauta.

O governo Trump alertou o Brasil sobre a participação da Huawei na rede 5G. Também ofereceu US$ 565 milhões em financiamento a um produtor brasileiro de terras raras.

A oferta ocorre em meio à tentativa americana de reduzir a dependência de fornecedores chineses. A própria Huawei, porém, já integra o plano de inteligência artificial do Brasil, com um supercomputador de R$ 1,3 bilhão.

A cobertura chinesa da eleição tem um limite claro. A China é o terceiro país com pior índice de liberdade de imprensa do mundo, segundo a Repórteres Sem Fronteiras.

O mercado de mídia chinês é dominado pelo Estado, e praticamente tudo o que é publicado carrega o aval do governo de Pequim.

Por isso, mesmo quando Jair Bolsonaro era presidente e adotava discurso inicialmente crítico à China, a pressão do agronegócio brasileiro levou o tom a amenizar. Companhias como a State Grid e a BYD mantiveram investimentos no país ao longo do mandato dele.

O que acontece agora

Lula e Flávio Bolsonaro aparecem nas primeiras posições nos dois turnos, segundo o Agregador de Pesquisas da BBC News Brasil. A votação deste domingo (4) decide quem comanda, a partir de janeiro, a relação do Brasil com seu maior parceiro comercial.