Levantamento da Ascema Nacional identificou 101 candidatos às eleições de 2026 com multas ambientais pendentes no Ibama e no ICMBio. As autuações somam R$ 120 milhões, distribuídas em 190 processos administrativos abertos entre 2017 e 2026, a maior parte ainda sem cobrança definitiva.

A Ascema Nacional é a Associação Nacional dos Servidores de Carreira de Especialista em Meio Ambiente. A entidade cruzou o cadastro de candidaturas de 2026 com os autos de infração do Ibama e do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).

A existência de uma multa não significa que o débito seja definitivo. A maior parte está classificada como "para homologação/prazo de defesa", fase em que o candidato ainda pode contestar antes de a multa se tornar exigível.

Há também casos em análise de recurso, pendentes de pagamento, e processos já encaminhados para inscrição em dívida ativa.

Como funciona o processo de multa ambiental?

O processo começa quando o fiscal lavra o auto de infração, diz Wallace Lopes, representante da Ascema Nacional. O autuado é notificado, pode apresentar defesa e o caso passa por julgamento em primeira instância, com possibilidade de recurso.

O perfil predominante entre os multados é de homens ligados ao agronegócio e a atividades empresariais, concentrados na Amazônia Legal e no arco do desmatamento. A ocupação mais declarada ao TSE é empresário, com 25 nomes, seguida por produtor agropecuário, deputado, agricultor e médico.

A região concentra o grosso das autuações e recebeu, em 2026, reforço federal contra incêndios e desmatamento.

A maioria dos 101 nomes concorre a vagas no Legislativo estadual e federal, mas o valor por cargo varia bastante:

Candidatos com multa ambiental por cargo disputado em 2026 — Ascema Nacional, dado de 27/09/2026
CargoCandidatosAutosValor
Deputado estadual49101R$ 103,9 milhões
Deputado federal3971R$ 10,4 milhões
Senado68R$ 3,2 milhões
1º suplente24R$ 1,5 milhão
2º suplente34R$ 314 mil

As candidaturas a deputado estadual concentram, sozinhas, mais de 85% do valor total mapeado, mesmo sendo metade dos 101 nomes na lista.

Um levantamento anterior, da Sumaúma, publicado pelo ClimaInfo em 14 de setembro, com metodologia e universo diferentes, mapeou 75 políticos da Amazônia Legal com R$ 176 milhões em multas do Ibama desde 2004.

Um dos casos é o de Daniel Santos, o Dr. Daniel, candidato do Podemos ao governo do Pará: foi multado em R$ 1,4 milhão por desmatar 280 hectares sem autorização em Tomé-Açu (PA) e promete cancelar multas ambientais.

Dr. Daniel diz que vai "libertar o setor produtivo" e defende expandir a produção agropecuária no estado. Boa parte desses candidatos disputa vagas no Legislativo estadual e federal, onde recai o poder de legislar sobre política ambiental.

O que acontece agora

As multas seguem seu trâmite dentro do Ibama e do ICMBio, independente do resultado das urnas. Autuação ambiental não gera inelegibilidade por si só, e o TSE já homologou candidatura mesmo com pendência jurídica em outros casos neste ano.

Cada processo segue sua tramitação de defesa e recurso já em curso. Candidatos eleitos com processo em aberto assumem o mandato normalmente, enquanto a cobrança corre em paralelo nas esferas administrativa e, se for o caso, judicial.