O nome do presidente argentino Javier Milei virou munição no debate entre Fernando Haddad (PT) e Tarcísio de Freitas (Republicanos) pelo governo de São Paulo nesta terça-feira (29). Os candidatos discordaram sobre o resultado do ajuste fiscal argentino ao debater a reforma tributária brasileira.

Tarcísio chamou o novo marco fiscal do governo Lula de "frouxo": "Temos uma questão fiscal delicada. Isso está refletindo na taxa de juros. A gente poderia classificar isso como negacionismo fiscal", disse.

Haddad rebateu citando o plano de Flávio Bolsonaro (PL) de suspender a reforma tributária por um ano. "Vocês estão querendo destruir a maior conquista depois do Plano Real. [...] Vocês querem o Milei aqui, não é?", disparou o petista.

Tarcísio saiu em defesa do argentino: "O Milei pegou uma situação muito complexa lá e tá indo bem. O que eu queria, na verdade, é que a despesa primária fosse menor", disse, associando o problema aos juros altos no Brasil.

No mesmo debate, os dois candidatos também trocaram farpas sobre segurança pública e o PCC.

O que os números da Argentina mostram?

Os dois lados têm dado real para se apoiar, e nenhum conta a história inteira. A inflação anual argentina, que passava de 289% em abril de 2024, caiu para cerca de 33,5% em meados de 2026, segundo o instituto oficial de estatística (INDEC).

O país também projeta superávit fiscal de 1,4% do PIB em 2026, o primeiro equilíbrio das contas em 14 anos.

A pobreza caiu de 41,7% para 28,2% da população, o menor índice desde 2018. É o número que sustenta o "está indo bem" de Tarcísio.

Mas o ajuste tem um custo que não aparece nesses índices. Segundo a Universidade Nacional de Buenos Aires (UBA), o salário mínimo perdeu 39,3% do poder de compra real entre novembro de 2023 e abril de 2026.

É o dado que sustenta o ataque de Haddad: mesmo com preços mais estáveis, o piso salarial argentino compra hoje bem menos do que comprava antes do ajuste.

O ajuste fiscal atingiu sobretudo trabalhadores do setor público, aposentados e famílias de renda mais baixa, que passaram a destinar parcela maior da renda a energia, transporte e alimentação, segundo a mesma pesquisa.

Do lado do emprego, 31,3 mil empresas fecharam e 245 mil postos de trabalho formais foram extintos entre novembro de 2023 e junho de 2026. Mais de 92% dos domicílios argentinos têm algum tipo de dívida.

O ajuste também elevou a exposição externa do país: a dívida da Argentina com o FMI deve triplicar até 2028, para US$ 9,5 bilhões.

Economistas já haviam avaliado que o modelo argentino de ajuste fiscal não é transponível para a economia brasileira, dada a diferença de estrutura fiscal entre os dois países.

O ponto em aberto

Nenhum dos dois resumos do debate paulista é falso: a inflação caiu, e a renda real também caiu. O que muda é qual desses números um governo escolhe usar quando quer vender ou atacar um modelo.

Faltam cinco dias para o primeiro turno em São Paulo, e a Argentina de Milei deve seguir como referência dos dois lados — sem que nenhum deles precise responder pela parte do resultado que não lhe interessa.